Runners Brasil conta sua história Liège Gautério
Desistir é a opção?
Nesta corrida que literalmente chamamos de vida fui conhecendo muitas pessoas, muitas histórias, muitas conquistas e algumas delas acabam tocando a gente, pois mesmo conhecendo técnicas que nos permitem escolhermos sermos pessoas melhores tem situações que eu paro e penso “como que ela conseguiu continuar e não desistir?”.
Algumas vezes o ato de desistir se torna a opção mais fácil, mais cômoda e simplesmente desistir resolve todos os problemas, ou não, pois o custo disso possa vir com tempo carregado de sofrimento, tristeza e até mesmo depressão. Por isso neste artigo escolhi compartilhar a história de uma pessoa que fez exatamente o que deveria ser feito NÃO DESISTIU e por mais obstáculos que a vida apresentou a ela, teve força, foco, disciplina para continuar. E não só continuar, mas se tornar bicampeã mundial nos 100 metros rasos para pessoas transplantadas na World Transplant Games Federation – WTGF.
A bicampeã é a Liège Gautério, bióloga, fonoaudióloga, profissional de educação física, com 49 anos, residente em Porto Alegre/RS e atua profissionalmente com aulas de pilates de treinamento funcional.
Em 2003 foi diagnosticada com fibrose pulmonar, uma doença progressiva que a faz com que não tivesse sem fôlego e se sentia muito cansada até mesmo no mínimo esforço. Fez uso de oxigênio 24hs por dia e quase não conseguia nem caminhar.
Nesta fase, ela usou a técnica da visualização (matéria que está na edição 3 da Revista Runners Brasil). Ela mentalizava o transplante acontecendo e imaginava correndo, trabalhando, estudando. Preparou mentalmente todo o processo e manteve o foco no pensamento positivo (matéria que está na edição 7 da revista). Ela afirma “… que nesses momentos vi que o que nos move é a mente, a positividade, a esperança.”
E por 8 anos viveu e conviveu desta forma até 2011 quando conseguiu entrou em uma lista para transplante pulmonar e em setembro daquele ano recebeu o que ela mesma diz “meu presente”, o pulmão esquerdo e atualmente vive somente com esse pulmão em funcionamento.
Não eram apenas remédios que iriam fazer parte da sua vida, pois para manter o pulmão ativo e funcionando teve que começar a praticar atividade física e no caso começou a correr. ]
“A corrida fazia parte do tratamento”
Neste período, entre receber o novo pulmão e disputar o primeiro mundial, como parece que nada seria fácil para Liège, ela descobriu um câncer de mama. Se submeteu a mastectomia radical a qual levou um tratamento por 5 anos. Para ela a atividade esportiva foi fundamental, dando suporte e a mantendo com pensamento positivo, focando sempre na solução e que tudo iria melhorar.
Liège fala “Desistir? Nunca foi uma opção!”.
Como não tinha muita resistência em função de ter um único pulmão, ela investiu em curtas distância e velocidade e assim foi participar em 2015 do primeiro mundial para transplantados em Mar Del Plata, na Argentina. Foi à primeira mulher brasileira a participar de um evento deste porte e, na prova dos 100 metros rasos e conquistou o posto mais alto, foi a campeã! O sentimento de felicidade tomou conta que a Liège foi de mostrar como um transplantado pode ter qualidade de vida, mesmo correndo um apenas um pulmão.
Este feito fez que a nossa campeã continuasse em frente e logo a seguir, em 2017 na Espanha, conseguiu ser a bicampeã mundial e já esta se preparando para defender o título no próximo mundial que ocorrerá na Austrália em 2023.
Além de tantos obstáculos emocionais e físicos a nossa bicampeã atua diretamente na divulgação da importância na doação de órgãos, demonstrando com sua própria história que uma pessoa transplantada pode ter uma vida normal e inclusive participar de eventos esportivos.
No mundo esportivo, desde 1960, foi se destacando os esportes para pessoas com deficiência, mas ainda trilhando o caminho para os que são transplantados. Por isso a nossa bicampeã criou o projeto “Se Mexe TX” com intuito de motivar as pessoas a se exercitarem, cuidarem da saúde e conscientizar da importância da doação de órgãos e mostrar que uma pessoa transplantada pode ter uma vida normal.
Este tipo de modalidade esportiva ainda não tem apoio financeiro e por isso não tem patrocínio e busca ajuda com vaquinha virtual e a @globeperson que a apoia neste desafio, que já é vitorioso.
Liège Gautério ainda faz uso de medicamentos para evitar a rejeição do órgão diariamente e que precisará tomá-los por toda a vida.
Por fim, ela nos deixa a mensagem:
“Sou muito grata à segunda chance que a vida me deu e à família doadora. Cuido-me e me exercito tentando honrar o lindo gesto da doação de órgãos. Meu conselho é de que as pessoas não desistam dos seus propósitos. Por mais difícil que possa parecer, vai valer a pena!”

