Números mostram que brasileiro se sente mais saudável do que de fato é, segundo pesquisa A.C.Camargo/Nexus
O brasileiro se enxerga com mais saúde do que os números confirmam, e isso pode ter um preço alto do ponto de vista oncológico. É o que revela a pesquisa “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos”, do A.C.Camargo Cancer Center e da Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados, que ouviu mais de 2 mil pessoas em todo o país.
Enquanto 59% dos entrevistados avaliam a própria saúde como ótima ou boa, os dados de peso e altura declarados mostram que 63% da população adulta está acima do peso ideal, sendo 37% com sobrepeso e 26% com obesidade, segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde.
“O excesso de peso é hoje reconhecido pela ciência como fator de risco para mais de dez tipos de câncer, entre eles os de intestino, mama, pâncreas e esôfago. Ou seja: seis em cada dez brasileiros carregam, sem perceber, um dos principais fatores de risco da doença”, detalha o Dr. Victor Piana, patologista e CEO do A.C.Camargo Cancer Center.
Quatro em cada dez nunca se exercitam
O quadro se agrava pela baixa frequência de atividade física: 42% dos entrevistados afirmam nunca praticar exercícios e, entre os que praticam, a média é de apenas 2,4 dias por semana. Na faixa de 41 a 59 anos, 49% nunca se exercitam. O índice chega a 55% entre quem tem ensino fundamental, 49% entre as mulheres, 49% no Nordeste e 54% entre pessoas com obesidade.
A prática regular de exercícios reduz o risco de tumores como os de intestino e de mama, ajuda no controle do peso e melhora a resposta do organismo durante e após o tratamento oncológico. “Quem não se movimenta abre mão de uma das ferramentas de prevenção mais baratas e acessíveis que existem”, diz Piana.
Um contraponto útil aparece entre os mais jovens: a faixa de 16 a 24 anos é a que menos declara sedentarismo, com 35%, embora lidere os quatro hábitos alimentares de risco.
O prato ajuda, mas a rotina sabota
A alimentação é o único ponto em que o brasileiro joga a favor da própria saúde. Dois terços dos entrevistados (66%) consomem alimentos frescos, como frutas, verduras, legumes, ovos e carnes, seis dias ou mais por semana, enquanto bebidas açucaradas, ultraprocessados, doces e frituras aparecem em cerca de dois dias semanais.
Mas comer bem não é escolha para todo mundo. Metade dos entrevistados esbarra em barreiras concretas: 29% apontam o preço alto de carnes frescas, frutas e vegetais, e 21% citam a falta de tempo e o cansaço da rotina. Entre quem ganha até um salário mínimo, o preço trava a alimentação saudável de 40% das pessoas, índice que cai para 10% na faixa acima de cinco salários mínimos, onde o obstáculo passa a ser o tempo (39%).
O paradoxo do álcool
Em relação às bebidas alcoólicas, 58% dos brasileiros afirmam não beber, 30% consomem álcool de um a dois dias por semana e 5% relatam beber de cinco a sete dias. Classificado pela OMS como cancerígeno, o álcool está associado a tumores de boca, garganta, esôfago, fígado, intestino e mama, e os riscos aumentam quando há também o cigarro.
O levantamento detectou outro paradoxo: entre os que mais consomem álcool, é maior a parcela que considera a própria saúde ótima ou boa. Essa percepção chega a 64% entre quem bebe de cinco a sete dias por semana, contra 58% entre os que não bebem. O resultado reflete a percepção dos entrevistados e não necessariamente suas condições objetivas de saúde.
“A pesquisa mostra que o maior risco do brasileiro não está no que ele sente, e sim no que ele não percebe. Excesso de peso, sedentarismo, cigarro e álcool são fatores de risco que se instalam silenciosamente na rotina”, diz Piana. “A boa notícia é que todos eles são modificáveis.”
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