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Amor consciente

26/09/2024 | De Camila Moraes

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Amor consciente
Concentra. Você é boa e forte. Boa. Forte. Principalmente boa. E forte. A corrida me exige tanto que, depois de muito questionar por que diabos enveredei pelo tema e pela prática, aos poucos cheguei ao resumo do que é um mote estimulante para mim ao longo desse duro percurso: “Concentra, Camila. Um pé, o outro. Adiante, você consegue. Você é boa e forte”. Parece esporte, mas é a vida. Nada na vida me parece mais importante do que ser boa, no sentido de caráter e também de competência, e nada me parece mais necessário pra essa missão do que ser forte. Seja o que for que isso exija de mim. Escrevo entusiasmada por minha primeira maratona, aquela em que precisei me lembrar, durante 42.195 mil metros, as razões do esforço tremendo que estava pondo em prática. E escrevo porque acredito que outras maratonas virão a mim e também que outros se perguntem o que faz alguém apostar nisso sem ser atleta profissional. Visitar esse texto aqui pode nos dar algumas respostas. A gente quer ser grande. Nem que seja por um dia. Enquanto corro, Bowie me diz isso ao pé do ouvido, e não poderia estar mais certo. Aliás, por um dia só, a meu ver, é melhor. A barra pesa, mas ao cabo do feito você pode se livrar dela. E voltar a ser um anônimo, um errante a mais na multidão, como David fora de cena. Escolhi Buenos Aires pra essa maratona. Ou talvez Buenos Aires tenha me escolhido, porque meu plano inicial era viajar a Berlim na mesma época e correr a prova de lá. Não por ser uma major, ou seja, uma das maratonas-mães, as mais desejadas por quem vive o mundo das corridas, mas porque é uma cidade linda e “fácil” de correr – e eu, sempre que dá, vivo mesmo é de beleza e facilidade. Por não conseguir vaga em Berlim, terminei na capital argentina, que tanto amo e por sorte conheço bem, a ponto de trocar com ela várias intimidades. Fiz certo; os alemães para depois. Estava curiosa sobre como seria tragar cada centímetro das ruas que percorri de outras maneiras, com outras ideias e uma percepção totalmente diferente do espaço. 42 quilômetros de calles portenhas. Seus cheiros, os veios de seu asfalto, seus habitantes, as histórias… Ainda mais, suas graças e desgraças, cujos reflexos naquele momento me atingiriam de maneira particular. Queria que tudo isso viesse a mim, a me acompanhar nessa primeira vez em que de fato comeria a cidade a passadas.   Pois foi um banquete. Acordamos cedo, minha companheira de quarto, corredora e eu. Banho para acordar, tempo de organizar, comer, estar a postos pra correr. Jeito feminino, diligente, de fazer as coisas, e ambas somos assim. No caminho à largada, uma ansiedade controlada como dá, um estímulo e um conforto circulando entre nós, além da vontade latente de fazer o show acontecer. Para mim, é isso: nunca se está pronto pra nada, a gente só faz acontecer. Por vontade mesmo: “Chega de espera, eu prefiro tentar fazer”. Estar preparado… Isso é pra quem se vidra em uma coisa só, e a vida não flui dessa maneira. À iminência da largada, me envolvo num abraço estimulante com minha companheira, e nós nos abraçamos com pessoas semi-conhecidas ao nosso lado. O pessoal da corrida é diversa, vamos dos obcecados monotemáticos aos que relutam a se chamar de corredores, mas que se dedicam, como eu. Só que numa hora dessas acontece aquilo que só há num show de música: a multidão cantando junto se torna afinada, uma unidade confraternizada em que as diferenças não ressaltam; ao contrário, elas desaparecem. Forma-se a massa sintonizada, em perfeita comunhão. Aí vem o disparo da largada, e rola a dispersão. O trote nervoso começa. A linha marca o começo de uma pesada jornada, à qual ninguém foi obrigado a aderir. Estamos ali porque queremos, e tenho pra mim que todo mundo trata de se lembrar disso. Longe ainda de terminar os 42, pese a todo nervosismo, posso afirmar de boca cheia que ter força de vontade é libertador. Quem para, morre. Então corro. Buscando meu ritmo, matando a ansiedade dos últimos dias e começando o verdadeiro trabalho. E, já no começo da labuta, entendo por que Buenos Aires me escolheu para a primeira grande corrida da minha vida. É a maratona mais latino-americana que existe. Penso isso e me sinto tão bem, que já tenho assunto pros meus primeiros 10 quilômetros. Olho pros lados e recebo o calor da torcida, ainda que ninguém ali estivesse torcendo pra mim. Vejo canarinhos por todos os lados… De 5 mil estrangeiros inscritos nessa corrida, uns 4 mil eram brasileiros. E dá-lhe o Brasil, país alegre como outros latinoamericanos, mas de uma maneira irrepetível, tão verde-amarela-cordial-pagodeira, que identifico de cara o arroz com feijão que venho comendo há 44 anos. Enjoa, mas nutre. Vejo também colombianos de Bogotá, e penso que vieram roubar nosso oxigênio, porque desceram dos quase 3 mil metros de altitude da cidade pros pífios 25 metros de Buenos Aires. Não têm pinta de maratonistas, mas aos meus olhos correm como se nada. São minha família, os colombianos, e assim como grito “vai, Brasil!” para a torcida canarinha, grito “vai, Colômbia” para cada bandeira do país tremulada nas calçadas. Mas aí é verdade que grito também pra Venezuela, pra El Salvador e pra Bolívia, pegando de surpresa os grupinhos desses imigrantes, que são muitos em Buenos Aires. Alguns levaram a bandeira que um dia deixaram pra trás pra agitar durante a prova. Grito “Chi-chi-chi, lê-lê-lê” e espero que saibam que gosto deles também. Sou, no fim das contas, uma rapariga latina, e não no sentido luso. Reivindico o brasileiro mesmo. Por isso, celebro na minha cabeça os corredores paraguaios que de repente me ultrapassam, fixo o olhar nos uruguaios que trotam à frente com a tranquilidade de quem legalizou a cannabis e, com dificuldade, procuro distinguir se os de camiseta branca e vermelha são do Peru ou então torcedores do River Plate. É quando começo a escrutinar as tais camisetas, galgando mais quilômetros de distração. “Correr ayuda”. “Correr evoluciona”. “Te ves sexy cuando sudas”. Eu jamais tentaria convencer ninguém a correr, mas concordo com todas. Encontro nas costas dos colombianos a tipagem sanguínea de cada corredor ao lado do nome gravado – uma herança de anos de guerra, que tornou a reposição de sangue (e de vida) uma prática obrigatória na Colômbia. Encontro porquinhos-da-índia estampados, whipalas à moda de lenço no pescoço, brincos grandes demais pra quem está correndo, e toda essa algazarra latino-kitsch me lembra de onde vim e aonde vou. Vou é adiante. O percurso se estica, e sou obrigada a voltar a mim. Negociando com o peso colossal das minhas pernas, observo chão sob meus pés, e vou sentindo Buenos Aires desse novo jeito, como já sabia que faria. Somos vários conquistadores, coisa que confirmo cada vez que olho para os lados e vejo gente branca, preta e parda e suada respirando curto e sonhando longo, assim como eu. Assim se aproxima a chegada. Não sofri de dor ou de exaustão mortal em nenhum momento da prova, só lutei a vera com meu corpo e negociei mentalmente com o nonsense que é correr tantos quilômetros sem parar. Fiz tudo o que fiz escutando música, numa lista repaginada pra ocasião, mas na realidade repleta de canções gastas de tanto que as escutei treinando. Foi mais um diálogo interno divertido, e fiquei feliz de me ver cantarolando uma que outra música (sem emitir som, mas mexendo mesmo a boca) – no quilômetro 8, assim como no 17 ou no 38. Corri untada de trilha sonora, tal qual vaselina. No 38, aliás, estourou uma cumbia que teve mais efeito no meu pique do que um gel de carboidrato. E lá pelo 41, pra minha gargalhada, começou a soar Nenhum de Nós, com “Camila-aaaa-ôôô, Camilaaaa…”, bem nacional, bem anos 80. Confesso que gostei do clichê macio e quentinho que me conduziu na base da piada à reta final. Não sei que tão boa e tão forte eu seja. Mas fui boa e forte ao concluir essa maratona. Correr me parece mais uma expressão de amor consciente: corro – e vivo – porque nada na vida está dado, ainda que muito esteja disponível. Gracias, Buenos Aires, por me tratar com intimidade, ainda mais íntima agora. E por me presentear uma medalha que simboliza nossa longa história.
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Crédito: Divulgação

Sobre o autor

Camila Moraes

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