Amor consciente
Concentra. Você é boa e forte. Boa. Forte. Principalmente boa. E forte.
A corrida me exige tanto que, depois de muito questionar por que diabos enveredei pelo tema e pela prática, aos poucos cheguei ao resumo do que é um mote estimulante para mim ao longo desse duro percurso: “Concentra, Camila. Um pé, o outro. Adiante, você consegue. Você é boa e forte”.
Parece esporte, mas é a vida.
Nada na vida me parece mais importante do que ser boa, no sentido de caráter e também de competência, e nada me parece mais necessário pra essa missão do que ser forte. Seja o que for que isso exija de mim.
Escrevo entusiasmada por minha primeira maratona, aquela em que precisei me lembrar, durante 42.195 mil metros, as razões do esforço tremendo que estava pondo em prática.
E escrevo porque acredito que outras maratonas virão a mim e também que outros se perguntem o que faz alguém apostar nisso sem ser atleta profissional.
Visitar esse texto aqui pode nos dar algumas respostas.
A gente quer ser grande. Nem que seja por um dia. Enquanto corro, Bowie me diz isso ao pé do ouvido, e não poderia estar mais certo. Aliás, por um dia só, a meu ver, é melhor. A barra pesa, mas ao cabo do feito você pode se livrar dela. E voltar a ser um anônimo, um errante a mais na multidão, como David fora de cena.
Escolhi Buenos Aires pra essa maratona. Ou talvez Buenos Aires tenha me escolhido, porque meu plano inicial era viajar a Berlim na mesma época e correr a prova de lá. Não por ser uma major, ou seja, uma das maratonas-mães, as mais desejadas por quem vive o mundo das corridas, mas porque é uma cidade linda e “fácil” de correr – e eu, sempre que dá, vivo mesmo é de beleza e facilidade. Por não conseguir vaga em Berlim, terminei na capital argentina, que tanto amo e por sorte conheço bem, a ponto de trocar com ela várias intimidades. Fiz certo; os alemães para depois.
Estava curiosa sobre como seria tragar cada centímetro das ruas que percorri de outras maneiras, com outras ideias e uma percepção totalmente diferente do espaço. 42 quilômetros de calles portenhas. Seus cheiros, os veios de seu asfalto, seus habitantes, as histórias… Ainda mais, suas graças e desgraças, cujos reflexos naquele momento me atingiriam de maneira particular. Queria que tudo isso viesse a mim, a me acompanhar nessa primeira vez em que de fato comeria a cidade a passadas.
Pois foi um banquete.
Acordamos cedo, minha companheira de quarto, corredora e eu. Banho para acordar, tempo de organizar, comer, estar a postos pra correr. Jeito feminino, diligente, de fazer as coisas, e ambas somos assim. No caminho à largada, uma ansiedade controlada como dá, um estímulo e um conforto circulando entre nós, além da vontade latente de fazer o show acontecer. Para mim, é isso: nunca se está pronto pra nada, a gente só faz acontecer.
Por vontade mesmo: “Chega de espera, eu prefiro tentar fazer”. Estar preparado… Isso é pra quem se vidra em uma coisa só, e a vida não flui dessa maneira.
À iminência da largada, me envolvo num abraço estimulante com minha companheira, e nós nos abraçamos com pessoas semi-conhecidas ao nosso lado. O pessoal da corrida é diversa, vamos dos obcecados monotemáticos aos que relutam a se chamar de corredores, mas que se dedicam, como eu. Só que numa hora dessas acontece aquilo que só há num show de música: a multidão cantando junto se torna afinada, uma unidade confraternizada em que as diferenças não ressaltam; ao contrário, elas desaparecem.
Forma-se a massa sintonizada, em perfeita comunhão.
Aí vem o disparo da largada, e rola a dispersão. O trote nervoso começa. A linha marca o começo de uma pesada jornada, à qual ninguém foi obrigado a aderir. Estamos ali porque queremos, e tenho pra mim que todo mundo trata de se lembrar disso. Longe ainda de terminar os 42, pese a todo nervosismo, posso afirmar de boca cheia que ter força de vontade é libertador. Quem para, morre.
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