Viver (correr) é melhor do que sonhar
Atividade física sempre fez parte da minha vida. Fui atleta de ginástica aeróbica de competição e sempre sonhei em representar o Brasil no campeonato Mundial
Infelizmente, por milésimos de segundos isso não aconteceu e com casamento e o nascimento das minhas filhas, fiquei muito afastada do exercício. Sofri bastante com aquela culpa típica de mãe, que tinha que sair para trabalhar. Saía de casa culpada por não ficar mais tempo com as meninas e saía do trabalho culpada por não ficar mais tempo trabalhando.
Com 2 e 3 aninhos, elas entraram no ballet. Comecei a aproveitar esse tempo para correr nas ruas perto da escola.
Ao longo dos anos os treinos foram ficando mais frequentes e resolvi me desafiar nos 42,195 km.
Escolhi Mendoza. Por causa da pandemia, a maratona que deveria ter acontecido no frio do mês de Maio de 2020, foi acontecer no calor do deserto de Novembro de 2021.
Nesse período conheci minha Dupla. A Patty e eu éramos as únicas doidas que continuavam treinando para as maratonas que eram constantemente canceladas e adiadas. A dela aconteceria uns 15 dias antes da minha, então tínhamos treinos parecidos e, quando não eram iguais, para o desespero do nosso treinador, a gente adaptava para fazer juntas.
Durante o ciclo, descobri que seguir uma planilha de treinos é apenas metade do que me leva a obter uma boa performance. A outra metade são os amigos. Definitivamente, a corrida é o esporte individual mais coletivo que existe. E,o medo que eu tinha de perder o tesão com a corrida com os treinos exaustivos e com o volume de treinamento de uma Maratona, se tornou aquilo que mais me encantava. O sentimento de superação a cada dia e a cumplicidade dos amigos.
Um dia, durante um treino para a maratona de Chicago, a Patty e o Bruno comentaram sobre uma possível chance para correr a maratona nas Olimpiadas.
Pela primeira vez na história, desde 1896, as Olimpiadas de Paris iam abrir vagas para atletas amadores correrem a maratona.
Para conquistar essa vaga, cada atleta deveria se cadastrar num aplicativo e ir se registrando de forma periódica nos desafios propostos pela organização. A cada desafio completado, o atleta teria direito a entrar em um sorteio. Assim, existia uma questão de mérito, mas também uma questão de sorte.
Eu, que sempre fui movida a desafios resolvi encarar mais esse. Corri muito. Completei 47 desafios. Até que, recebi o email da confirmação da vaga. Fiquei em estado de choque.
Precisei fazer uma ligação de vídeo pra Patty. A gente não sabia se ria, se chorava, gritava, infartava!
De repente, eu tinha a possibilidade de realizar um sonho, que não tinha nem a ousadia de sonhar.
E ia para Paris. Para correr a maratona nas Olimpiadas.
E, quando faltava, exatos.4 meses, aconteceu uma coisa incrível. A Patty, me faz uma ligação de vídeo, com a mesma cara que fiz para ela alguns meses antes, com olhos estatelados, aquele nariz de choro. Ela não precisou falar nada. Rimos e gritamos juntas como loucas. De todas as 10000 vagas femininas espalhadas pelo mundo, 2 eram nossas. Minha Dupla havia se juntado ao seleto grupo das 70 atletas brasileiras que iriam correr a Maratona das Olimpiadas de Paris.
Eu acredito demais em energia. Energia das pessoas, energia que a gente emana e que a gente recebe. O Universo entrega. E a gente precisa estar pronto para receber. A gente merecia viver tudo isso juntas.
A largada da maratona olímpica aconteceu no Sábado, em frente ao hotel de Ville. Uma multidão se aglomerava nas ruas para assistir a corrida. Passamos pelo museu do Louvre no momento que o sol se punha, o céu todo laranja, a pira olímpica subia junto com uma lua cheia ainda muito discreta no meio de todo aquele resplendor.
Para aumentar a minha emoção, a maratona terminou exatamente na madrugada do dia dos pais. Eu corri com o tênis das cerejeiras, em homenagem ao papai. Suas flores simbolizam a fragilidade da vida e despertam para a importância de aproveitar intensamente cada momento, pois o tempo passa rápido e a vida é curta. Corri com o papai nos pés e no coração. Depois do km 30, onde tudo doía, a água quente dos postos de hidratação me dava ânsia de vômito e dor de barriga, eu só pensava que não podia parar. A multidão gritava. Paris estava em festa. A torre Eiffel piscava para mim, toda iluminada, enfeitada com os arcos olímpicos. Desacelerei e decidi não pensar em tempo. Lembrei da cerejeira. Resolvi aproveitar ao máximo o restante do percurso, agradecendo e sentindo cada pessoa que estava um pouco comigo ali também. Parei no km 38 para a abraçar a Lu, a Mari e a Deia que estavam ali histéricas me gritando. Aproveitei cada segundo, cada metro tão duramente vencido naquela cidade tão maravilhosa. Passei pelo pórtico de chegada no Invalides, exausta e totalmente fora de mim. Minha alma ainda estava correndo pelas ruas de Paris.
Sou muito grata por tudo que vida me oferece. Eu sei que luto e busco pela felicidade todos os dias.
Entendo que as escolhas que fazemos definem quem somos e a vida que levamos.
Ser feliz, exige coragem.
Coragem para fazer escolhas.
Coragem para trabalhar com o que se ama. Amar sem medo e continuar aprendendo.
Felicidade não é um fim, ou um lugar onde se pode chegar.
Felicidade é o próprio percurso.

