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Um casamento, dois nascimentos, três lutos e sete maratonas.

03/12/2025 | De Carlos Campelo

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Um casamento, dois nascimentos, três lutos e sete maratonas.

Se existe alguém que pode nos ensinar que mesmo diante das maiores tempestades, a luz da superação é possível, essa pessoa é Rosana Ribeiro Barreto. Aos 48 anos, advogada por profissão e maratonista de corpo e alma, Rosana, ou @zana_ribeiro0 como a conhecemos nas redes, carrega em sua trajetória uma resiliência que comove e inspira. Sua história, tecida em dores profundas e vitórias monumentais, é um testemunho vivo de como a vida pode, sim, dar segundas chances, principalmente quando se tem um coração que se recusa a parar de lutar.

Aos 18 anos, Rosana iniciou sua vida a dois, casando-se em 1995. Cinco anos depois, em 2000, a alegria da maternidade foi abruptamente interrompida. Seu primeiro filho, Gustavo, nascido prematuro, travou uma batalha de 38 dias contra a vida antes de partir, vítima de complicações severas.

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“No dia 18/12/2000, parei na entrada da UTI e chorei. Não conseguia dar um passo, sentia que algo estava acontecendo. Uma enfermeira se aproximou e perguntou o que estava acontecendo; então quis saber se ele ainda estava lá. Naquele momento, ela me pediu para ir me despedir dele. Criei forças, fui até ele, chorando, cantei, beijei a incubadora —e me despedi. Horas depois, recebi a notícia de que ele tinha partido.”

 

A perda do pequeno Gustavo mergulhou Rosana em um abismo de depressão. Ela lembra com clareza o medo que a dominava, as crises de choro incontroláveis, o peso no corpo e na alma que a faziam engordar, e um buraco imenso que parecia impossível de preencher. O telefone tocava, a campainha soava, mas ela se isolava, buscando refúgio em si mesma. Foi a fé e o milagre da vida, com o nascimento de sua filha Beatriz em 2002 – a quem ela carinhosamente chama de sua “cura” – que trouxeram de volta a alegria e a esperança para Rosana.

Mas o destino, por vezes cruel, guardava mais uma prova de fogo. Em 2008, após uma gravidez de alto risco, nasceu Felipe, seu segundo filho. A pequena vida de Felipe, marcada por dificuldades desde o berço, como problemas de sucção e crises de cianose, também chegou ao fim em 2009, com apenas 1 ano e 3 meses. Rosana se viu novamente diante do pesadelo, “sem chão”, com o pavor de mergulhar novamente na escuridão da depressão.

Ela se questionava com amargura: por que duas vezes? Por que a dor da perda de um filho se repetia? O luto foi tão avassalador que, para tentar encontrar algum alívio, Rosana doou todos os pertences de Felipe e mudou de casa, buscando desesperadamente superar o luto. Naquele período, as falhas de memória eram um reflexo visível da sua mente sobrecarregada pela dor.

Foi em meio a essa dor, a esse vazio que parecia intransponível, que Rosana encontrou um caminho inesperado para a cura. Em 17 de outubro de 2010, durante um despretensioso passeio no shopping com uma amiga, uma simples placa de inscrição para uma corrida de 9km capturou seu olhar. Sem nunca ter corrido na vida, sem conhecer ninguém que o fizesse, ela sentiu um ímpeto de coragem, uma vontade de fazer “algo diferente”. Aquela inscrição era um grito silencioso por uma nova chance. E assim, de óculos de leitura, Rosana completou sua primeira corrida. Um renascimento. Uma chama reacendida. A partir daquele dia, sua vida nunca mais seria a mesma.

A corrida, para Rosana, não é apenas um esporte; é um refúgio, uma terapia, uma “cápsula diária de felicidade” que ela religiosamente consome. É o encontro mais puro consigo mesma, um momento onde a tristeza se dissipa e a superação floresce. A cada passo, a cada suor, ela sente a gratidão por estar curada da depressão, por ter trocado o foco da dor por realizações, por ter redescoberto a paz e o prazer nas coisas mais simples da vida, como sentir o orvalho no rosto nas manhãs de treino, a chuva no seu corpo limpando a sua alma.

Seus objetivos, que começaram com a ousadia de completar 9 km, cresceram junto com sua paixão. De pequenas corridas, Rosana alçou voos maiores, conquistando meias maratonas e corridas de montanha, até encarar o desafio supremo: a maratona. A preparação para a SP City Marathon em 2017, sem um treinador formal e conciliando a rotina intensa de advogada, foi uma jornada árdua, com treinos longos e exaustivos. Mas a determinação inabalável de se tornar uma maratonista a impulsionou. Seu irmão Rogério participou dessa jornada encontrando-a no 21km e concluindo como apoio até a linha de chegada, vivenciando os quilometros mais difíceis de uma maratona, dando forças e em 5h26min não foi apenas a conclusão de uma prova; foi a celebração de uma vitória pessoal grandiosa, a prova de que ela era capaz de superar a si mesma.

O que a manteve de pé e a fez continuar, mesmo nos momentos mais difíceis, foi a incessante busca por transcender a dor. O amor de Beatriz foi o primeiro bálsamo, mas a corrida se tornou o escudo e a espada. Durante a maratona, quando as pernas falhavam por volta do quilômetro 35, Rosana sorria e agradecia a Deus a cada passo, impulsionada pela certeza de que, em breve, seria uma maratonista. Ela se agarrava à meta de superar a si mesma.

No ano 2020 seu irmão Rogério faleceu no Covid, mas deixou a lembrança de celebrar a primeira maratona com ela.

E havia as palavras de uma amiga, que, em um momento de angústia após o divórcio de Rosana, de um casamento de 25 anos a lembrou: “Amiga, você enterrou dois filhos, você supera qualquer coisa nessa vida”. Essa frase ressoou como um mantra, “ressignificando” mais uma vez sua existência e reafirmando sua força.

Hoje, Rosana percebe a corrida como um pilar essencial de sua vida, não apenas um esporte, mas uma fonte inesgotável de bem-estar e autoconhecimento. Ela comemora cada prova, cada treino, como um milagre de estar curada, de ter transformado a tragédia em inspiração. Com sete maratonas e incontáveis meias maratonas no currículo, ela é a prova viva de que a corrida pode ser muito mais do que movimento; pode ser liberdade.

Em sua jornada, Rosana reconhece o papel fundamental da fé, agradecendo a Deus por cada quilômetro vencido. Embora não nomeie todos individualmente, o carinho por sua filha Beatriz e o apoio de suas amigas foram pontos de luz em sua trajetória.

Seus planos para o futuro são tão vibrantes quanto sua energia. Rosana sonha alto, almejando correr maratonas icônicas como as de Nova York, Boston, Chicago ou Berlim. Ela se sente pronta, com a convicção de que não permitirá que os problemas da vida ofusquem sua capacidade de sonhar e de se superar.

Para todos que leem sua história, Rosana deixa uma mensagem que ecoa a sua própria vida: “O esporte cura a depressão, eu sou prova disso.” Sua trajetória é um convite a olhar para dentro, a encontrar a paixão que impulsiona, a não desistir, a persistir apesar dos obstáculos. Ela nos ensina que, mesmo quando a vida parece desabar, há sempre uma corrida a ser vencida, um novo amanhecer a ser celebrado. Lute, viva, corra e seja feliz – essa é a essência do legado de Rosana, um testemunho vivo da incrível força do espírito humano.

E como ela mesmo diz: “Bora viver!” “Bora ser feliz porque a vida tá aí”.

Sobre o autor

Carlos Campelo

Psicólogo Esportivo

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