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Um antes e depois que vale a visita

27/07/2022 | De Leila D’Aprile

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Parece um pouco saturada aos corredores, a ideia de quanto a corrida muda nossas vidas. Mas por aqui, invariavelmente essa máxima surge em momentos de mudança de ciclos, como o que vivo agora chegando perto dos 40 anos.

Corro há pouco mais de 7 anos, mas às vezes parece que faz 100. É uma avalanche de transformações e elas não vem na mesma proporção o tempo todo. Ainda arrisco pensar que a avalanche não é tão avalanche assim, porque as mudanças vieram tão devagar que só consigo perceber olhando pra trás. Você já olhou a fundo isso?

Lanço aqui então um desafio: pegue uma fotografia sua qualquer de pelo menos 10 anos atrás e olhando pra ela, análise no que você ainda se identifica e no que não mais. Eu fiz isso outro dia numa foto de casal do início do namoro e comparei com uma recente, de chegada de maratona também de mãos dadas com meu marido.

A primeira diferença não é o corpo, nem o sorriso, nem o botox. A primeira diferença foi pensar que a Leila da primeira foto jamais se imaginaria na segunda. Se numa previsão de futuro, alguém me dissesse que em 10 anos eu estaria chegando de mãos dadas com meu marido na minha quarta maratona, e na segunda dele, eu fatalmente daria risada e pediria o dinheiro de volta.

Mas aconteceu e a principal mudança ainda não é essa. A mais importante diferença entre as fotos é ter aprendido cada lição de vida que a corrida nos dá dia após dia. Sim, a corrida traz à tona desde seus sentimentos até seus mais vulneráveis momentos de vida, que às vezes você não queria ver. O que você está vivendo reflete no seu desempenho, no seu objetivo, no seu processo e no seu resultado. Aprendi que não só o corpo responde, como ele também pode moldar a vida. Ele é resposta, mas ele também é ação. Se meu corpo funciona como uma ferramenta pra entender minha vida, funciona também como uma ferramenta para mudá-la. O que fazemos na corrida, fazemos na vida. O que fazemos na vida, fazemos na corrida. E assim, vão se passando os anos e o marcador “corridas da minha vida” nos mostra por onde caminhamos.

Uma das percepções que tive nesse exercício de comparar duas fotos é lembrar do que eu pensava sobre a vida, do que eu queria da vida, do que eu achava de mim. Antes de correr, eu não tinha sonhos “estruturados”, no máximo pensava em algo pro ano que vem, para as próximas férias, ou pro futuro loooonge. As maratonas me ensinaram a enxergar sonhos como objetivos. Quando eu resolvi que queria me desafiar nos 42km correndo, precisei mapear todo o caminho. Eu conhecia apenas um amigo que já tinha feito tamanha loucura, mas não sabia nem metade do que se precisava fazer para carregar uma medalha dessas.

Não é à toa que não precisa de mais de 2 minutos de conversa pra saber que uma pessoa corre maratonas. É muito empenho, é muito plano, é um projeto sim e não se pode fazer sozinho, sem apoio da família, dos treinadores, equipe médica e etc. Você precisa entender semana a semana o que está acontecendo, o que vai fazer, o que deu certo e o que não deu. Tem análise, tem mudança de rota, tem ajuste e tem clareza no foco. Aprendi assim, correndo.

Saber transformar um sonho em meta não é fácil. Aprendi a mensurar uma micro meta e uma macro meta, entendi que o processo da vida nunca será linear, entendi que falhar uma vez não é rótulo de fracasso, que amanhã tem outro treino, que ainda tem mais km e km de tentativas. Aprendi essas e tantas outras verdades da vida, materializando a vida na corrida.

Minha principal mudança no estilo “antes e depois” de começar a me dedicar a esse pilar da vida não é um espelho, e não consigo mostrar em montagens de fotos. A principal mudança para mim foi entender que “se marcar a data, chega”, e então eu precisava todo dia saber o que eu queria. Na pista, no asfalto, na vida.

Meu pai sempre disse que “o SE não existe”, e ele tem razão, pois eu não sei o que seria da Leila SE não tivesse começado a correr lá na primeira semana de 2015 como uma resolução de ao novo.  Eu só sei que a Leila que foi se transformou na Leila que sou, e tenho enorme gratidão pelo que aprendi nesse “novo MBA” que é a corrida de rua, como bem nomeou Nizan Guanaes.

Hoje, em 2022, tenho plena convicção que toda força mental e física que faço nos treinos e provas de corrida, me levam adiante no caminho da resiliência e do estoicismo, que tanto precisamos para viver bem. Aquele movimento de aguentar mais um pouquinho porque tenho uma meta clara, me fez uma pessoa melhor. E quando acho que a vida não está tão boa e não sei o que fazer, saio pro treino com vontade de fazer aquele algo a mais e mudar tudo, assim como na vida.

Não deixarei de ser piegas pra dizer que essa poderosa ferramenta de autoconhecimento e autogestão da vida que é a corrida, me transformou numa pessoa que se ama o suficiente pra amar mais que está ao meu redor. Isso não tem preço.

Em dois meses, chego nos 40 anos, e o que quero comemorar é essa visão de vida que tenho hoje e essa força vital que a corrida me traz. Façam isso, olhem além da imagem da foto e sintam a mudança que a corrida traz. Sobre o passado: vale a visita.

Sobre o autor

Leila D’Aprile

Médica

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