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Quando o mínimo é o máximo

07/07/2023 | De Leila D’Aprile

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Quando o mínimo é o máximo

A gente passa a vida tentando achar algo que fazemos bem, e invariavelmente achamos. Quando isso acontece, permanecemos nesse lugar fazendo mais e mais, e somando conquistas como quem guarda seus tesouros nas mãos. Fazer mais daquilo que julgamos fazer bem feito, se torna um grande objetivo de vida para aquela pequena porcentagem da população que procura evoluir, e  encontra o caminho fortalecendo fortalezas.

Mas, como já disse Schopenhauer, “a vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir”, e quando conseguimos chegar aonde queríamos, o tédio as vezes nos faz reiniciar a busca por outra coisa que fazemos bem, as vezes até algo mais desafiador.

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Assim foi minha migração da corrida pro Triathlon. Eu queria conhecer algo mais complexo e mais difícil, e sem sombra de dúvidas, com o tri, eu consegui encontrar. Triathlon é difícil e complexo desde o primeiro contato. Não só pelas modalidades, que por si só já me desafiaram no início do sonho, mas também pela dedicação de energia e motivação que precisa ter para concluir esse projeto.

Nesse mundo de entender as modalidades, digo que eu sabia nadar, mas não muito bem e isso atrapalha um pouco. Meu treinador diz que às vezes é mais fácil ensinar as braçadas do zero do que trabalhar alguém que já nadou um pouco. Eu sabia pedalar, mas mal entendia a lógica das marchas da bicicleta, quiçá sabia cambiar ou tomar água pedalando. E tem mais, colocar o corpo transitando pelas três modalidades daria um capítulo a parte para quem está começando a entender esse mundo do tri. Então, já de antemão, essa migração já se mostrava difícil e complexa o suficiente, mesmo antes de eu começar a treinar. Só que insisti porque para mim, o tri era o vencer o “tédio de possuir” depois de alguns anos correndo rápido e conquistando marcas e vagas concorridas. Já tinha feito muita coisa difícil na minha análise de corrida e queria algo a mais.

Era setembro de 2018 quando comecei essa busca pela saciedade nas três modalidades. O ponta pé inicial veio de uma lesão no pé, e escolhi treinar bike e natação durante minha recuperação. Comecei numa spinnig e comprei minha bike em dezembro desse 2018, fiz todo o enxoval do tri e larguei no meu primeiro short em março de 2019 já sonhando com um 70.3 em setembro de 2020. Eu me preparei muito, sonhei, mas a prova não aconteceu. Como muitos triatletas, por 2 anos seguidos de confinamento pela pandemia, fiz muito volume de bike, nadei em piscina com uso individual, subi e desci escada correndo, depois corri de máscara isolada de todos. Fiz musculação na cadeira de jantar de casa, pack de mini band, e colchonete no chão com cachorrinho lambendo minha cara. No final de 2021, encaixei uma Boston Marathon com quarentena no México tentando ressignificar tudo aquilo, e me descobri uma corredora feliz com aquele algo que eu fazia bem. Veio 2022 com reaberturas, new normal, e enfim novas datas para nossas provas de volta. No meio do meu ciclo de treinos pro sonhado Ironman70.3, tivemos uma intercorrência de saúde em casa, e a dança das prioridades me fez enxergar que não era mais o momento do Triathlon. Desisti da prova e falei aqui com vocês sobre isso, me vi saindo do Triathlon sem ter concluído meu desafio. Pra quem treina pro Endurance do tri, encaixar um ciclo de maratona foi tranquilo, e assim o fiz. Fiz uma maratona linda em Buenos Aires, um ciclo muito mais maduro, enxergando o espaço que isso tudo ocupa na minha vida. Corri sem sofrer e tirei 7 minutos do meu PR com direito a ser a segunda brasileira a cruzar a linha (a primeira era uma PRO). Estava ali decidida a me manter no algo que faço bem, mas uma pulguinha atrás da minha orelha me perguntava se eu estava mesmo satisfeita.

Em fevereiro deste 2023, um novo caminho se abriu para mim. Recebi um convite muito muito bacana de integrar o seleto grupo de triatletas do time da OnRunning e competir com eles na temporada de 23 no circuito do Ironman. O grupo é montado por feras do esporte e eu, uma novata já na categoria de 40+, com uma vida atribulada de trabalho, filho, família, estudo. Foi irresistível entrar para aprender e está sendo assim. Conversei em casa, negociei ali e aqui, então aceitei, me inscrevi no 70.3 SP e agradeci muito!

O desafio estava apenas por começar. Quando a gente é criança e ganha uma bicicleta do Papai Noel, quer sair pra pedalar na rua antes do sol nascer e de pijamas. Foi assim comigo quando recomecei a planilha do tri nessa fase da vida. Porém, precisei de poucas semanas pra entender que a Leila triatleta de 2019/2020 não existe mais, não posso resgatá-la. De lá pra cá, foram alguns poucos anos, mas o suficiente para reconhecer que minha vida havia mudado muito, e o principal:  já havia encontrado minha maturidade em deixar bem definido o lugar que o esporte tem na minha vida. Só que agora, o Triathlon veio desafiar essa verdade, e parecia não caber nesse espaço, ficou apertado pra ele. A dedicação pro treino do endurance do tri passa de 14 horas semanais de suor escorrendo pelo corpo, fora os complementos, e o leva e traz de tudo isso, que soma mais muitas horas semanais na conturbada vida paulistana. Tinha aqui um belo desafio: fazer a Leila perfeccionista, dedicada e disciplinada entender que é preciso fazer o mínimo possível se quiser fazer essa prova.

A maturidade vem aparecendo nesses detalhes, quando enxergamos o desafio através da ótica do ecossistema todo onde estamos inseridos. Minha agenda não é só minha, é compartilhada com os compromissos, sonhos e desejos do meu filho, do meu marido, da minha família. Não acredito mais que as renúncias precisam ser muito doloridas para que o resultado seja proporcionalmente muito satisfatório. A régua da felicidade nessa pista mudou, e não mudou só para a corrida, como foi ano passado na maratona de Buenos Aires, mudou para todo e qualquer esporte que eu entro pra competir comigo.

Eu quero fazer um 70.3 Ironman, e eu vou fazer. Estou treinando pra isso. Confesso que estou aprendendo a lidar com planilha incompleta. Estou aprendendo a lidar, com muito apoio do meu treinador, que a planilha é uma proposta do ideal, mas que nossa vida não mora nessa caixinha do ideal. Atualmente estou convicta que o possuir não precisa ser tão entediante, pois a ânsia pelo ter pode nos fazer conhecer limites que não queríamos.

Por: Leila D´Aprile – @leila.daprile

Sobre o autor

Leila D’Aprile

Médica

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