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Carboidrato é mesmo o combustível da corrida? A revisão científica que está sacudindo a fisiologia do exercício!

14/03/2026 | De Dra Ana Paula Simões

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Carboidrato é mesmo o combustível da corrida? A revisão científica que está sacudindo a fisiologia do exercício!

Durante décadas, corredores de todos os níveis ouviram a mesma recomendação: *carboidrato é o combustível da corrida. A lógica parecia simples. O músculo armazena glicogênio, utiliza esse substrato durante o exercício e, quando ele se esgota, surge a fadiga. Foi com base nesse conceito que nasceram estratégias clássicas da nutrição esportiva, como o *carb loading, os géis de carboidrato e as bebidas esportivas.

Mas uma revisão científica recente publicada na revista *Endocrine Reviews* reacendeu um debate importante na fisiologia do exercício: será que o papel dos carboidratos durante o exercício foi interpretado de forma simplificada ao longo das últimas décadas?

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O artigo que deixei abaixo pra vocês revisa mais de um século de estudos sobre metabolismo energético e performance e propõe uma reflexão interessante. Segundo os autores, a fadiga durante exercícios prolongados pode estar menos relacionada ao esgotamento completo do glicogênio muscular e mais associada à *queda da glicose no sangue, fenômeno conhecido como **hipoglicemia induzida pelo exercício*.

Essa hipótese desloca parcialmente o foco da discussão. Em vez de enxergar o carboidrato apenas como combustível muscular, os autores sugerem que sua principal função durante o exercício pode ser *manter a glicose sanguínea estável*, protegendo o funcionamento do sistema nervoso central.

O cérebro depende quase exclusivamente de glicose para funcionar. Quando a glicemia cai, podem surgir sintomas como tontura, fadiga intensa, redução da capacidade de concentração e aumento da percepção de esforço. Nesse cenário, o organismo tende a reduzir a intensidade do exercício como mecanismo de proteção. Assim, a ingestão de carboidratos durante provas de endurance poderia atuar principalmente na *manutenção da função cerebral*, permitindo que o atleta sustente o esforço por mais tempo.

Outro ponto interessante levantado pela revisão é o conceito de *flexibilidade metabólica*. O músculo esquelético não depende exclusivamente de glicogênio para produzir energia. Durante exercícios prolongados, especialmente em intensidades moderadas, ocorre também uma contribuição significativa da oxidação de gordura. Atletas bem treinados apresentam maior capacidade de utilizar ácidos graxos como fonte energética, preservando parcialmente as reservas de glicogênio.

Isso não significa que os carboidratos deixaram de ser importantes. Pelo contrário: a literatura científica continua mostrando que a ingestão de carboidratos melhora o desempenho em exercícios de longa duração e alta intensidade. A diferença está na interpretação do mecanismo fisiológico envolvido.

O grande mérito dessa revisão é justamente estimular uma discussão mais sofisticada sobre o metabolismo energético no esporte. A fisiologia do exercício é complexa, e reduzir o desempenho humano a um único combustível pode ser uma simplificação excessiva.

Para os corredores, a mensagem prática continua clara: estratégias nutricionais precisam ser *individualizadas*. A necessidade de carboidratos depende da intensidade do exercício, da duração da prova, do nível de treinamento do atleta e da sua adaptação metabólica.

O que a ciência está mostrando cada vez mais é que o corpo humano possui uma capacidade extraordinária de adaptação. Entender essas nuances pode ajudar atletas e treinadores a desenvolver estratégias mais inteligentes de treinamento e nutrição.

A corrida continua sendo um dos melhores laboratórios da fisiologia humana. E, como toda boa ciência, o conhecimento evolui justamente quando começamos a questionar aquilo que parecia indiscutível.

Me conta qual sua estratégia?

*Referência*

Noakes TD, et al. Carbohydrate Ingestion on Exercise Metabolism and Physical Performance. Endocrine Reviews. 2026;47(2):191–220.
DOI: [https://doi.org/10.1210/endrev/bnaf038](https://doi.org/10.1210/endrev/bnaf038)
Link: [https://academic.oup.com/edrv/article/47/2/191/8432248](https://academic.oup.com/edrv/article/47/2/191/8432248

Fontes das imagens

Foto: Freepik

Sobre o autor

Dra Ana Paula Simões

Médica esporte e Ortopedista

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