Relatório Analítico do ano 2025 : Panorama Global das Atividades Físicas NO MUNDO (versão comentada pela Dra. Ana Paula Simões)
ESTAMOS EM MOVIMENTO!
Em 3 de dezembro de 2025, o Strava divulgou seu 12º “Year in Sport: Trend Report”, revelando tendências globais de comportamento físico e social entre seus mais de 180 milhões de usuários espalhados por 185 países . A partir desses dados, é possível extrair reflexões relevantes sob a ótica da medicina esportiva analisando como essas tendências podem impactar a saúde, o desempenho e o risco de lesões de diferentes populações.
Principais Tendências de Movimento e Hábito
- Movimento em primeiro lugar: do “doomscrolling” ao tênis de corrida
• O relatório aponta uma mudança nítida: a geração mais jovem ( principalmente a Geração Z )virou as costas para o consumo passivo de telas e priorizou atividades físicas, especialmente corrida, caminhada e musculação.
• A corrida mantém seu protagonismo como modalidade preferida. Além disso, caminhar e treinos de força assumiram papel de destaque, reforçando a tendência de “multi-esporte” ou “treinamento cruzado” para manter consistência e prevenir monodisciplinaridade. - Clubs e comunidade: suporte social e motivacional
• Em 2025, o número de clubes (clubs) no Strava quase quadruplicou, chegando a 1 milhão globalmente. O crescimento mais acentuado foi dos clubes de caminhada (crescimento 5,8×), seguido pelos clubes de corrida (3,5×). Eventos organizados por clubes aumentaram 1,5× em relação a 2024.
• Esse dado aponta para uma tendência crescente de socialização através do exercício, algo que na prática clínica e esportiva pode favorecer não apenas a adesão ao treinamento, mas também a manutenção da regularidade, fator importante para adaptação fisiológica e prevenção de lesões por sobrecarga. - Diversidade de estímulos físicos e recuperação como valor
• Mais da metade dos usuários (54 %) passaram a rastrear múltiplas modalidades — não apenas corrida, mas também caminhada, musculação e outras atividades.
• Esse comportamento pode indicar maior consciência sobre a importância da variabilidade nos estímulos, um ponto que alinho com os princípios de periodização do treinamento e prevenção de lesões por uso repetitivo.
Implicações para Saúde, Desempenho e Lesões
Um olhar da médica do esporte:
Como especialista em medicina esportiva e ortopedia, interpreto os achados do relatório sob os seguintes prismas:
• Adesão e consistência: o fato de clubes crescerem de forma expressiva e de haver preferência por treinos variados sugere que muitos atletas amadores ,especialmente jovens, estão encontrando motivação social e prazer no movimento. Isso é altamente benéfico, pois consistência é condição fundamental para adaptações fisiológicas positivas e redução de risco de lesões crônicas.
• Treinamento cruzado como prevenção: o uso de múltiplas modalidades — corrida + caminhada + musculação favorece o fortalecimento muscular, melhora da resistência e menor repetitividade de cargas nas articulações. Isso se alinha com recomendações de treinos fundamentados em evidências para prevenção de overuse injuries, especialmente em corredores.
• Novos perfis: força e estética , especialmente entre Geração Z e mulheres , com busca por musculação e estética corporal. Esse tipo de demanda traz desafios e oportunidades: é positivo se bem orientado (fortalecimento, melhora da composição corporal, prevenção de osteopenia, etc.), mas demanda atenção para carga de treinamento, técnica e recuperação para evitar lesões musculoesqueléticas.
• Importância da comunidade: clubes e treinos em grupo favorecem supervisão, apoio, feedback : fatores que aumentam adesão e segurança. Especialistas em medicina esportiva devem incentivar esse tipo de ambiente de treino, pois pode facilitar orientação técnica, prevenção e intervenção precoce.
Possíveis Limitações e Cuidados ao Interpretar os Dados
• Embora o relatório forneça um panorama global amplo, trata-se de dados autorrelatados e dependentes da adesão ao aplicativo. Isso pode gerar viés de seleção, pessoas mais comprometidas com o esporte tendem a usar o app, subrepresentando sedentários ou praticantes informais sem acompanhamento digital.
• A heterogeneidade entre países, padrão de uso, clima, cultura, infraestrutura e suporte clínico é enorme. O que se aplica para usuários globais pode não refletir adequadamente a realidade brasileira , ou mesmo de regiões específicas dentro do Brasil.
• A interpretação médica exige cautela: maior volume de atividade e diversidade não garantem bons resultados se a periodização, técnica, recuperação e individualização não forem respeitadas.
Comentários Finais de Saúde e Performance
O cenário descrito pelo “Year in Sport 2025” do Strava revela uma guinada positiva: o movimento deixa de ser um ato solitário para voltar a ser um fenômeno social, acessível e plural. Para nós que atuamos em medicina esportiva e ortopedia, esse dado reforça o papel do esporte não apenas como performance, mas como instrumento de saúde pública, prevenção e qualidade de vida.
Contudo, esse movimento crescente deve ser acompanhado de orientação técnica, individualização do treino e atenção aos sinais de alerta para que o prazer de calçar o tênis e correr não se transforme em lesão por excesso, má postura ou sobrecarga.
Gostou da informação?
Dúvidas?
Me escreva!

