Você usa seu GPS do jeito errado
Há uma crescente cada vez maior em nossa sociedade do uso de assessórios para melhorar na corrida, o que inclui relógios GPS com cada vez mais funções, onde muitas vezes nem sabemos como usar tudo que eles têm para nos oferecer. Quando eu comprei meu primeiro relógio GPS, a primeira coisa que fiz foi arrumar a data e o horário nas configurações, já que eu o uso durante todo o dia, só que demorei mais de 10min procurando como ajustar isso, vendo vídeos e tutoriais, até que fiz que a única coisa que precisava ser feita: sincronizar o GPS. Eu sei, é algo extremamente simples, mas eu como inexperiente na época, não sabia (já fica a dica caso for comprar o seu).
Mesmo com o crescente uso dos relógios GPS pelos corredores profissionais ou amadores, vemos um outro cenário surgindo, corredores fazendo provas, ganhando-as e batendo recordes sem usar qualquer tipo de relógio. É o caso da ganhadora da São Silvestre de 2022, Catherine Relin, do recordista das 10 milhas da Europa, Emile Cairess e da recente ganhadora da maratona de Londres, Sifan Hassan, entre outros.
O que explica isso? Talento, genética, gosto pessoal? Acredito que sejam duas coisas, de acordo com o que estudo e pelas entrevistas dos atletas: a primeira é a capacidade de interocepção (falaremos disso mais adiante, não saia do artigo) e de como o relógio limita o seu potencial na corrida.
Se você decidir correr sua próxima prova mantendo o mesmo ritmo sempre, usando o relógio GPS para fazer essa marcação, significa automaticamente que já decidiu o quão rápido pode completar a distância total. Você não deixou a mínima oportunidade de se surpreender com um dia bom, de ter condições climáticas favoráveis ou de estar se sentindo bem. Você limitou o seu potencial antes mesmo da largada ser dada.
Dois dos pensamentos que já passaram pela sua cabeça enquanto você estava correndo e foi conferir o ritmo no relógio foram:
– “Esse ritmo está muito rápido, não vou conseguir sustentar até o final”.
– “Estou correndo muito devagar, tenho que acelerar, se não vou completar a prova mais lento do que planejei”.
Consegue perceber como esses pensamentos são negativos? Quando nos baseamos exclusivamente na informação do GPS, naquele número que está ali apresentado, nomeamos o que estamos sentindo (muito rápido, muito lento, não vou conseguir, estou cansado…) e mudamos toda a nossa corrida dali em diante, simplesmente por causa de um número, de uma estimativa externa que é imperfeita e não de como estamos nos sentindo realmente. Aí que entra o papel fundamental da interocepção.
A interocepção, é a nossa capacidade de sentir e entender as sensações internas do corpo, como cansaço, fome, estresse, fadiga, dor. Quando você olha para o pace, pode se sentir ansioso, tenso, estressado por conta daquele número e não porque de fato sente isso. Ao entender seus sentimentos e prestar atenção aos sinais do seu corpo, você corre de uma maneira mais relaxada, podendo deixar ele livre para alcançar o potencial máximo daquele dia.
Para que você entenda um pouco mais sobre essa habilidade, vou descrever uma situação, e você pensa o que ela te lembra, pode ser?
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- Aumento da frequência cardíaca
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- Suor nas palmas das mãos
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- “Borboletas” no estômago
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- Inquietação
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- Pensamentos sobre o amanhã.
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- A primeira coisa que fazemos quando o relógio vibra ou envia aquele sinal sonoro é olharmos para ver em que ritmo estamos. Eu quero que você resista a isso. Não olhe para o GPS enquanto ele não der a marca de 1km.
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- Corra prestando atenção nas suas sensações, tanto físicas quanto mentais. Esqueça o pace por um momento. Tente sentir como está a sua respiração, o quanto o seu calcanhar está elevando, como está se movendo.
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- Quando o relógio der a marcação de 1km, pense primeiro em que pace está correndo e diga para si mesmo mentalmente, e só depois olhe para o relógio. Assim você consegue comparar o a informação com o que está sentindo, desenvolvendo uma capacidade maior de interocepção.
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