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Quando as pernas te falharem, correr com o coração. E se o coração estiver desfeito?

05/06/2023 | De Sara Veloso

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Quando as pernas te falharem, correr com o coração. E se o coração estiver desfeito?

Uma vez disseram-me: “quando as pernas te falharem, corre com o coração”. Achei muito bonito. Mas curiosamente, nas provas longas, o que nunca me falhou foram as pernas. O coração falhou-me sempre. O corpo aguenta tudo, aguenta muito, e somos muito mais fortes e resistentes do que aquilo que nos permitimos ser. E essa permissão é desbloqueada pelo nosso cérebro. Por isso é que é tão importante estarmos psicologicamente estáveis, motivados e equilibrados, para podermos maximizar o nosso rendimento.

A superação física exige inevitavelmente uma superação mental e emocional. Quem é maratonista sabe exatamente do que estou a falar. Quando alcançamos o 30.º quilómetro, muitas vezes, não são as pernas que falham, é a cabeça. A cabeça começa a vacilar. Começa a mandar sinais de autossabotagem ao corpo. “Estou aborrecido”, “tenho fome”, “não aguento mais”, “tenho sede”, “quero ir ao banheiro”, “dói-me a perna”, “doí-me o joelho, (…), nessa altura, até a orelha esquerda começa a doer.

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E é esta consciência da importância do factor psicológico na performance física que tem aumentado a procura pelo ramo da “Psicologia do Desporto”.

O rendimento desportivo depende de um conjunto de fatores mensuráveis: treino, descanso, alimentação, suplementação. E de outros que, apesar de não serem tão fáceis de enumerar quanto os primeiros, podem ser desenvolvidos e trabalhados. Isto é, há um conjunto de competências e habilidades psicológicas que os atletas devem dominar no sentido de terem maior capacidade de lidar com as exigências e adversidades nas provas ou nos treinos mais duros. O autoconhecimento, a autoestima, a gestão do stress, a autoconfiança, o controlo da ativação, a motivação, a organização pessoal, e a forma como se lida com lesões, são alguns exemplos apontados na literatura da Psicologia do Desporto como as principais competências psicológicas necessárias ao rendimento desportivo. 

O nosso factor psicológico é tão poderoso que nos faz sentir dores onde elas não existem. Aconteceu-me isso mesmo, recentemente, quando corri a Maratona de Madrid. Um dia antes da prova, comecei a sentir dores na zona da articulação coxofemoral. Pensei em não correr a prova com receio de estar com alguma lesão. Mas não fazia sentido ser uma lesão porque eu tinha cumprido o meu plano de preparação sem dores, e na semana anterior à corrida tinha diminuído a quantidade de quilómetros e o ritmo de treino.

Iniciei a prova com imenso medo, mas a verdade é que a dor desapareceu mal comecei a correr. Era claramente um problema de somatização. A somatização ocorre quando emoções ou problemas de ordem psicológica se manifestam por meio de sintomas físicos.

O impacto do factor psicológico no meu desempenho físico e performance em prova tem-se manifestado com regularidade. Por coincidência, em todas as maratonas que corri não estava bem em termos emocionais. Ou porque tinha terminado uma relação amorosa há pouco tempo, ou porque estava a ponderar terminar uma relação amorosa.

A Maratona de Lisboa, foi sem dúvida, a minha prova mais sofrida. E foi sofrida, não por falta de preparação (sou muito disciplinada, não falho aos treinos), mas porque estava instável e desequilibrada emocionalmente. Sentia-me confusa, frágil, carente, inquieta, ansiosa. E ao contrário do que me disseram “quando as pernas te falharem, corre com o coração”, foram sem dúvida as minhas pernas que se aguentaram firmes. As pernas e a minha determinação e foco. O coração? Esse estava destruído.  

Mas agora vamos olhar para o lado positivo destas histórias menos felizes de correr maratonas com o coração destruído, se a minha média de tempo de realização de uma Maratona é 3h30, e se na próxima prova eu estiver mentalmente forte, qual será o meu tempo de prova? Vamos a palpites?

Sobre o autor

Sara Veloso

Especialista Exercício Físico

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