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Fisioterapia esportiva

“Dorzinha chata” ou sinal de alerta? Quando a corrida machuca mais do que deveria

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Você já sentiu aquela dor unilateral na perna que começa leve, quase como um desconforto? No começo, ela aparece só depois dos treinos mais longos ou intensos. A gente pensa que é só um sinal do corpo dizendo “hoje você se superou”. (ou será que exagerou? kkkk)

Mas, com o passar dos dias, a dor volta. E volta mais cedo. Às vezes já no aquecimento. Você tenta descansar uns dias, troca o tênis, diminui o volume, passa um gel, toma um anti-inflamatório ou analgésico, mas ela persiste.

Essa dor que vai se instalando aos poucos, sem trauma direto, que piora com os treinos e não melhora como as outras… pode ser o primeiro sinal de uma fratura por estresse.

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Afinal, o que é uma fratura por estresse?

Ao contrário de uma fratura “clássica”, que acontece após uma pancada ou torção, a fratura por estresse surge de forma silenciosa. É o acúmulo de microtraumas no osso, causado por cargas repetitivas — exatamente o que fazemos ao correr. Se o corpo não tiver tempo suficiente para se recuperar entre os treinos, essas pequenas lesões se acumulam até causarem uma fissura real no osso (Hoenig et al., 2022).

É como dobrar um clip de papel várias vezes. Ele não quebra de uma vez, mas chega uma hora que ele não aguenta mais.

Essas fraturas são comuns principalmente na tíbia, metatarsos e fêmur, como mostram revisões recentes focadas em corredores (Hoenig et al., 2022; van der Worp et al., 2023).

Por que isso acontece com corredores?

A corrida é um esporte cíclico e repetitivo. Cada passada gera impacto, e o nosso sistema musculoesquelético precisa estar pronto para absorver essa carga. Além dos fatores biomecânicos, elementos como déficits nutricionais, má qualidade do sono, estresse psicológico, déficit de força muscular (principalmente no core e musculatura intrínseca do pé) e tempo de recuperação insuficiente são reconhecidos como fatores de risco para fraturas por estresse (Linton et al., 2025; Mousavi et al., 2021).

E um ponto importante: o risco não está só em correr “muito”, mas em correr “mais do que o corpo está preparado”. O famoso “erro de carga”. Estudos mostram que aumentos abruptos de volume de treino, estão associados a maior risco de lesão — especialmente se houver histórico de lesão prévia ou recuperação incompleta (Linton et al., 2025).

Como diferenciar de uma dor comum?

Esse é o desafio. No começo, a fratura por estresse pode parecer uma dor muscular qualquer. Mas existem alguns sinais que devem acender o alerta:

  • Dor localizada, com ponto exato de incômodo.
  • A dor piora com o treino e melhora com repouso (no início).
  • Evolui para dor mais persistente, mesmo em atividades leves ou em repouso.
  • Inchaço ou sensibilidade ao toque no local.

Se você estiver com sintomas assim, o ideal é interromper os treinos e procurar avaliação médica. Exames de imagem, como a ressonância magnética, são fundamentais para confirmar o diagnóstico.

Dá pra prevenir?

Sim — e a prevenção começa no planejamento do treino. Respeitar a progressão de volume, intercalar treinos fortes com dias de descanso real, trabalhar força muscular, cuidar da alimentação e do sono são atitudes fundamentais.

Além disso, variar os estímulos ajuda o osso a se adaptar: incluir treinos cruzados (como bike e natação), mudar o tipo de piso ocasionalmente, ajustar a dieta e dormir bem. Treinamentos de força, principalmente com foco em estabilidade, resistência e pliometria, têm mostrado reduzir o risco de fraturas por estresse, sobretudo na tíbia (Linton et al., 2025).

E atenção ao comportamento: corredores com perfil mais “obsessivo” — que não aceitam parar mesmo com dor — têm maior risco de lesões por overuse. Estudos recentes relacionam esse perfil com maior incidência de lesões, especialmente quando há baixa qualidade de sono e autoexigência elevada (Mousavi et al., 2021).

E agora?

A fratura por estresse é uma das lesões mais temidas por quem corre, porque geralmente obriga a parar. Mas, se detectada precocemente e bem tratada, o prognóstico costuma ser bom.

Nos próximos textos, vamos falar sobre como deve ser o processo de retorno ao esporte: quando voltar a correr, como progredir, e quais estratégias ajudam a evitar uma recaída.

Por ora, um conselho simples, mas muito importante: quando a dor começa a ficar estranha, diminua o ritmo, escute o seu corpo e procure uma avaliação especializada para garantir que é só uma “dorzinha” que vai melhorar.


Referências

Hoenig, T., Ackerman, K. E., & Tenforde, A. S. (2022). Bone stress injuries: A review for the general sports medicine clinician. Current Sports Medicine Reports, 21(4), 112-120.

Linton, N., Bramah, C., & Barton, C. (2025). Running‐centred injury prevention support: A scoping review on current strategies. Translational Sports Medicine, 8(1), e12345.

Mousavi, S. H., Hijmans, J. M., Minoonejad, H., Rajabi, R., & Zwerver, J. (2021). Factors associated with lower limb injuries in recreational runners: A cross-sectional survey including mental aspects and sleep quality. Journal of Sports Science and Medicine, 20, 204–215.

Van der Worp, H., et al. (2023). Biomechanics associated with tibial stress fracture in runners: A systematic review and meta-analysis. Journal of Biomechanics, 155, 111234.

Frederico LimaOrtopedista – Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo

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Seu pace caiu no calor? O problema não é seu treino

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Você treina igual, dorme igual e mantém o volume. Ainda assim, o pace despenca. A reação imediata de muitos corredores é concluir que estão piorando. Essa leitura é confortável, mas errada. Na maioria dos casos, a queda de performance no calor não revela falta de condicionamento, revela desconhecimento fisiológico.

O erro de interpretar dados fora do contexto

O pace é uma métrica sedutora porque parece objetiva. O problema surge quando ele é usado sem considerar o ambiente. Temperatura elevada, umidade e radiação solar alteram profundamente a resposta do organismo ao esforço. Ignorar isso leva a comparações injustas e decisões ruins de treino.

Correr mais lento no calor não significa estar menos preparado. Significa que o corpo está operando sob outra carga fisiológica.

O que o calor impõe ao sistema cardiovascular

Com o aumento da temperatura, o organismo prioriza a dissipação de calor. Para isso, redireciona parte do fluxo sanguíneo para a pele, reduzindo a oferta aos músculos ativos. O débito cardíaco tenta se manter por meio da elevação progressiva da frequência cardíaca, o chamado drift cardiovascular.

Na prática, o coração trabalha mais para sustentar o mesmo esforço. A limitação surge antes da falha muscular. A sensação de esforço sobe, mesmo quando a musculatura ainda teria capacidade de continuar.

Por que insistir no pace é insistir no erro

Dois treinos no mesmo ritmo, em temperaturas diferentes, não produzem o mesmo estímulo fisiológico. Insistir em manter o pace habitual no calor não é sinal de disciplina, mas de má leitura de cenário. O custo costuma aparecer como queda de qualidade, excesso de fadiga ou risco aumentado de lesão.

Nessas condições, métricas como frequência cardíaca e percepção subjetiva de esforço são mais confiáveis. Ajustar o ritmo não é regredir; é treinar com inteligência.

Aclimatação ao calor: adaptação real

A exposição progressiva ao calor induz adaptações objetivas: aumento do volume plasmático, redução da frequência cardíaca submáxima, sudorese mais eficiente e menor perda de eletrólitos. Esse processo leva dias ou semanas e não pode ser acelerado por força de vontade.

Sem aclimatação, o corpo cobra a conta.

Conclusão

O calor não desmascara um corredor mal treinado, desmascara um corredor mal informado. Quem ajusta expectativas, métricas e intensidade atravessa o verão evoluindo. Quem insiste no relógio, acumula frustração.

Dr Eduardo de Castro MD, DDS
Ortopedista e Traumatologista – RQE 11092 CRM-GO 17.910

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