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Daniel do Nascimento: trajetória olímpica, recordes e a punição por doping

09/05/2025 | De Darlan Souza

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Daniel do Nascimento virou sensação do atletismo brasileiro nos últimos anos ao conquistar resultados históricos. Em abril de 2022 ele “estabeleceu um novo recorde sul-americano ao correr os 42km da Maratona de Seul” em 2h04min50s, superando a antiga marca da lenda Ronaldo da Costa e se tornando o melhor corredor não-africano do mundo na distância. Ainda aos 23 anos, Daniel já era famoso por suas ousadias em grandes provas: representou o Brasil na maratona de Tóquio 2021 e chegou a liderar a corrida ao lado do então bicampeão olímpico Eliud Kipchoge, mas acabou abandonando precocemente perto dos 30km. Na ocasião, mesmo em sofrimento, ele protagonizou um momento inesquecível: cumprimentou Kipchoge com um “soquinho” amigável na largada.

Em novembro de 2022, Daniel viveu outro grande momento: liderou a Maratona de Nova York nos EUA até o km 32. Nesta imagem de New York ele estava em destaque na ponta do pelotão. Infelizmente, sentiu-se mal antes do fim da prova, frustrando o que seria a maior vitória de sua carreira. A pergunta que todos faziam era: Será que eu excesso de vontade e elevada empolgação estava atrapalhando sua performance nos momentos decisivos de uma grande maratona?

Em poucos anos, Daniel havia percorrido a trajetória típica de um fenômeno: da primeira maratona, em 2021, até o pódio em Seul (3º lugar com recorde) e posto garantido nas maiores maratonas do mundo. Para a comunidade da corrida de rua, ele era a aposta de que um brasileiro de novo dominaria a distância: “Daniel do Nascimento, Danielzinho… é uma das estrelas do atletismo brasileiro”

 

Apoio de todos os lados

Daniel conquistou não apenas medalhas, mas também muitos admiradores. A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), presidida por Wlamir Motta, sempre o enxergou como um talento promissor e investiu em sua preparação para os Jogos Olímpicos. Patrocinadores e marcas esportivas internacionais apostaram em seu potencial. Ídolos como Ronaldo da Costa o receberam como herdeiro de sua tradição — foi para Nova York de olho justamente em igualar a façanha de Ronaldo em Berlim (1998) e de Marilson Gomes (NY 2006/08). A comunidade de corredores brasileiros o reverenciava como exemplo a seguir: nas redes sociais, grupos e eventos ele colecionava elogios. Até internacionalmente, Eliud Kipchoge o saudou como colega de pelotão, celebrando o gesto de fair play no Japão. Na maratona olímpica, Daniel trocou palavras e sorriso com Kipchoge, que mais tarde elogiou o jovem em entrevistas. Todo esse apoio reforçava a imagem de Daniel como um campeão em construção. Os portais noticiam: “Daniel do Nascimento estabeleceu […] um novo recorde sul-americano ao correr os 42 km da Maratona de Seul, na Coreia do Sul, em 2h04min50s. O brasileiro terminou a prova na terceira posição e superou a marca estabelecida por Ronaldo da Costa (2h06min05s), em 1998”

A sombra da suspeita

As primeiras suspeitas vieram de fora. Em junho de 2024 estourou um escândalo no Quênia: a maratonista Graziele Zarri (que já foi capa da nossa revista na edição 35 em março de 2024), esposa e treinadora parceira de Daniel, foi surpreendida por um resultado adverso em exame antidoping no país africano. Conforme matéria na imprensa, Graziele foi “suspensa provisoriamente após testar positivo para um esteroide anabolizante e para testosterona” enquanto treinava no Quênia. A notícia soou como um alerta: Daniel e Graziele treinavam juntos em Iten (Quênia) e dividiam rotina, acendendo o sinal de alerta na comunidade atlética.
Pouco depois, em julho, o próprio Daniel teve resultados similares. O maratonista brasileiro foi comunicado de que, em exame surpresa fora de competição realizado em 4 de julho de 2024, apareceram três esteroides anabolizantes em sua urina. Conforme a ABCD (autoridade brasileira de dopagem), foram detectados drostanolona, metenolona e nandrolona. Na lista oficial de suspensos publicada dias depois, Daniel do Nascimento e Zarri figuravam juntos – o primeiro caso de doping confirmado no atletismo brasileiro às vésperas de Paris.

O caso oficial: documentos e acusações

Os detalhes oficiais vieram a público em maio de 2025, com a decisão da AIU (Unidade de Integridade do Atletismo).
“The AIU has banned Daniel Do Nascimento (Brazil) for 5 years from 15 July 2024 for Presence/Use of Prohibited Substances (Drostanolone, Metenolone, Nandrolone). DQ results from 4 July 2024” Link: https://www.athleticsintegrity.org/downloads/pdfs/disciplinary-process/en/AIU-24-177-DO-NASCIMENTO-Decision.pdf
O documento relata que Daniel entregou duas amostras de urina (dias 4 e 7 de julho de 2024) em treinamentos no Rio de Janeiro, Brasil. Ambas acusaram uso de anabolizantes: no teste de 4 de julho havia “Drostanolone, Metenolone e Nandrolone” no organismo do atleta, e o de 7 de julho confirmou novamente drostanolona e metenolona. A partir disso, a ABCD notificou Daniel em 15 de julho de suspensão provisória. Nos dias seguintes, segundo o processo, seu representante pediu mais tempo para apresentar defesa alegando que Daniel sofria problemas de saúde mental. O documento anexado, porém, era ilegível, e a AIU iniciou procedimentos formais. Por fim, reconheceu-se que houve “evidências claras do uso de múltiplas substâncias proibidas” pelo atleta. A sanção acabou acima do limite convencional: cinco anos de suspensão, retroativos a 15/07/2024, conforme a AIU.

Esse é o X da Questão: Daniel só poderá voltar a competir em julho de 2029.

Em linha com as regras, todos os seus resultados obtidos a partir de 4 de julho de 2024 foram anulados – mas curiosamente ele mantém o mais importante: o recorde sul-americano (a prova de Seul de 2022) porque aquela data foi anterior ao primeiro teste positivo. Assim destacamos que, a pena é quatro anos (mínimo para essas substâncias) mais um ano extra por “circunstâncias agravantes”, reduzido em um ano por ele ter admitido a culpa. “A Unidade de Integridade do Atletismo (AIU) anunciou nesta quarta-feira a punição para Daniel Nascimento. Pelo uso de drostanolona, metenolona e nandrolona, três hormônios anabolizantes, ele foi suspenso por cinco anos, com início do gancho retroativo a 15 de julho de 2024”.

O silêncio de Daniel

Durante meses, Daniel permaneceu em silêncio. Internamente, quem era mais próximo até poderia saber de sua rotina, mas comentavam pouco, apenas lia-se relatos em redes sociais que Daniel “é um menino, tem 24 anos, as redes sociais, quando houve a exposição pública da situação (acusação de doping), não perdoaram ele”. Publicamente, ele não deu entrevistas nem emitia explicações. Em nosso podcast realizado em 31 de julho de 2024, Wlamir Motta o presidente da Cbat lamentava os fatos, contou detalhes do apoio da Cbat ao atleta, as decisões do mesmo e estava esperançoso quanto ao seu julgamento. No entanto, só agora em 23 de abril de 2025 Daniel compareceu a uma audiência da AIU, na qual não contestou as acusações. Com isso, acelerou-se a decisão final – e ele ficou sem outra opção senão aceitar a punição esportiva.

Repercussão na comunidade

O caso chocou entidades, fãs e atletas. A torcida mostrou-se dividida entre descrença, indignação e tristeza. Muitos lamentaram perder o “Danielzinho” e cobraram transparência das autoridades. Por outro lado, houve quem lembrasse o histórico impecável do corredor. Entre os corredores recreacionais, internautas das redes sociais e grupos de corrida, prevaleceu uma sensação de decepção – mas também de solidariedade à juventude do atleta. Vários treinadores e corredores veteranos manifestaram apoio público, pedindo calma e paciência a todos. Como exemplo de superação, divulgaram histórias como a do maratonista Paulo Roberto de Paula: quase 46 anos, ele ainda correu 2h13min07s em Sevilha 2025, mantendo-se competitivo mesmo sem muito apoio e patrocínio. O americano Meb Keflezighi também é citado: com 38 anos ele venceu a Maratona de Boston em 2014 com 2h08min37s. Essas referências reforçam a esperança de que Daniel, se maduro e determinada, possa retornar forte após a sua condenação esportiva.

E o futuro? Esperança e reconstrução

Não há como ignorar que a suspensão de cinco anos é pesada em termos atléticos de alta performance. Mas um olhar objetivo mostra que Daniel voltaria às pistas com cerca de 30 anos de idade – idade ainda competitiva em maratona, onde veteranos batem recordes. Se optar por continuar, ele terá tempo para recuperar-se mentalmente e reconstruir sua reputação. A história já nos mostrou que atletas só voltam melhores se refletirem após uma pausa, um intervalo. Com preparação sólida, séria e mais madura, Daniel poderia voltar em 2030 condicionado às rígidas regras e ganhando muito mais experiência emocional. Acreditamos que tanto ele quanto a CBAt, desejam um caminho a ele, de aprendizado e retorno ético.

Em meio à polêmica, fica a lição: Daniel do Nascimento foi idolatrado por seu talento e determinação; agora é acompanhado na torcida para que amadureça, aproveite este tempinho fora das competições a seu favor e, no futuro, retorne não só como uma grande fundista, mas como exemplo de superação e volta por cima.

Pra nós aqui só resta esperar, estamos a disposição caso ele queira se pronunciar sobre os fatos do passado, sobre seu presente e seu futuro. Neste sentido, fica claro que apesar deste turbilhão de informações e polêmicas, queremos o melhor para ele neste momento delicado da sua vida, da sua carreira. Assim, vamos torcer muito por melhoras em todos os sentidos, pode contar com a gente, esperamos um retorno ainda mais fenomenal do nosso maior fundista da atualidade.

Bons treinos a todos, camaradas!

Sobre o autor

Darlan Souza

Profissional de Educação Física

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