Correr é um exercício de espera
Eu sou uma pessoa agitada por natureza. Acho que já nasci querendo fazer mil coisas ao mesmo tempo. Tudo eu quero, e tudo, eu quero muito.
Nesse sentido, a corrida me trouxe um aprendizado sobre o tempo das coisas. Sobre o processo da conquista. Sobre o caminho até chegar lá.
Engana se quem acha que a corrida é para os apressados
Quem se propõe a correr longe precisa entender que o tempo da corrida é outro.
O tempo se transforma no caminho. As horas percorridas carregam os sentimentos de conquista a cada treino entregue ou a frustração de um dia ruim. O tempo ensina que a velocidade vale muito menos do que a constância. O ato de partir é muito mais importante do que a linha de chegada.
Correr é parar no tempo. E, ao mesmo tempo, é deixar se ir para bem longe.
Correr é momento que você consegue estar por inteiro com você mesmo. Sem Whatsapp, sem ter que responder ninguém.
Para correr longas distâncias, é importante aprender a viver nesse vazio do tempo, sem pressa, pacientemente.
É preciso aprender a lidar com o tédio e com a dor, administrar força, vontade, fadiga, medo e tempo.
Para quem observa de longe, parece que está tudo fluindo, fácil, o corpo se movendo cheio de harmonia. Por dentro, respiração ofegante, pensamentos desordenados, mente inquieta, as vezes vazia. Aprendizado diário. Evolução constante.
Maratonistas estão sempre indo.
Nunca para. Mesmo no km 36, quando a mente atinge seu auge no processo de sabotagem, quando você promete que nunca vai fazer isso de novo. Quando você questiona o motivo para tanto esforço. De repente, chega a tão esperada linha de chegada. De repente, todo aquele desespero em terminar logo chega ao fim. E, de repente, você já está sonhando com os próximos 42,195km.
E, talvez, justamente nesse instante, enxergamos o poder de toda a jornada. A força do processo e da paciência na espera. E, só assim, conseguimos continuar.

