Q&A Runners Brasil – Djalma Moura
“É preciso acessar a força interna que existe em cada um de nós”. Palavras de quem já se colocou em situações extremas, se desafiou em lugares inóspitos e inimagináveis (para muitos) de que se é possível fazer uma das coisas que mais ama na vida: correr! Djalma Moura, de 66 anos, sabe explicar muito bem o que é viver e colecionar momentos e experiências. O pernambucano, morador de Florianópolis há mais de 40 anos, gosta mesmo é dos extremos, tanto é, que recebeu o título de atleta mais rápido do mundo acima de 61 anos na Antarctic Ice Marathon, em 15 anos de existência da prova. Mas essa é apenas uma das suas conquistas. O homem do gelo, ou melhor, Djalma Iceman, como é conhecido, já participou de uma das maratonas mais altas e difíceis do mundo, e correu sete maratonas em sete dias. Histórias que vão ser todas contadas em um livro, mas o ultramaratonista conta os detalhes antes, para os leitores da Runners Brasil. Acompanhe!
Sabine Weiler: Qual motivo te levou a correr e quanto tempo já faz isso?
Djalma Moura: Na época, os problemas de saúde da minha sogra juntamente com meu hábito de assistir à Corrida Internacional de São Silvestre pela TV – a mais tradicional prova de corrida do Brasil – fizeram-me refletir sobre o que eu poderia fazer para usufruir de saúde e uma melhor qualidade de vida nos anos que viriam. Então, há quase 20 anos tomei a decisão de praticar a corrida com constância.
Sabine: É possível ainda contar quantas provas já correu?
Djalma: Já perdi as contas! Foram inúmeras corridas de 5km, 10km, 15km, 18km, 21km, uma maratona em dupla com minha esposa e mais de 17 maratonas no Brasil e exterior. Corri também provas de trilha (trail run) e ultramaratona. Na campanha solidária Kms Pela Doação de Órgãos 2020, no mês do “Setembro Verde”, conclui 1.011km, que foram doados para várias instituições beneficentes.
Sabine: Diante de um currículo esportivo que o senhor tem, qual foi a prova que mais te marcou? Por quê?
Djalma: A prova que mais me marcou foi a maratona do gelo na Antártica, a Antarctic Ice Marathon, prova que está no livro do Guinness World Record como a maratona mais ao sul do planeta, no local conhecido como Union Glacier a mais de 3.000km do continente sul-americano. Como eu não tinha a cultura do frio, tudo teria que dar certo naquele momento com sensação térmica de -30°C e era a minha estreia em maratona extrema, para correr numa superfície de gelo. Procurava cumprir aqui em Florianópolis as planilhas semanais programadas pelo meu orientador e técnico professor Roberto Lemos. Apesar das câimbras no final da maratona, do forte vento gelado e da falta de visibilidade (óculos congelou) e outras dificuldades, conclui a prova numa boa classificação tornando-me o atleta mais rápido do mundo acima de 61 anos na Antarctic Ice Marathon em 15 anos de existência dessa prova. Essa maratona foi marcante para mim e tem um significado grande, pois foi a minha estreia em provas extremas e onde eu conquistei o título mencionado. A Antártica é o continente mais alto, mais frio, mais ventoso e seco do planeta.
É preciso respeitar muito esse ambiente, ainda quase intocável, sob pena de ter que pagar um preço alto em termos de lesão, como por exemplo, frostbite – queimadura causada pela exposição ao frio extremo, em alguns casos tem que amputar parte do corpo.
Sabine: O seu nome também está marcado na Everest Marathon. Participar de uma prova como essa exige muito mais do que uma preparação para uma maratona, porque têm os dias que antecedem a prova, que são necessários para chegar até o ponto de largada. O que falar de uma prova como essa onde poucos chegam?
Djalma: A Everest Marathon é a maratona mais alta do mundo e uma das mais difíceis, onde o ponto de partida da prova é o campo base do Monte Everest, a 5.364 metros de altitude. Para começar a maratona é preciso chegar andando (trekking) até a largada para que haja uma aclimatação adequada e não sofrer com os efeitos da montanha, no meu caso durou 13 dias, subindo e descendo montanhas, passando por vários vilarejos, enfrentando frio, calor, chuva, neve praticamente sem tomar banho, o lenço higiênico é seu grande aliado. Eu diria, essa é uma maratona de sobrevivência, onde o ar é rarefeito. É preciso levar uma mochila com tudo que possa ser necessário a um ambiente tão inóspito como esse. O percurso da prova é repleto de pedras, milhões de pedras de vários tamanhos e formatos que estão soltas de maneira instáveis com milhares de degraus gigantes, tanto para subir como para descer, sendo que num eventual acidente, há grande chance de lesão grave e até de morte. A sinalização é precária apenas com pedacinhos de tiras de pano colocadas aleatoriamente nos arbustos. E até os yaks ficam na passagem e nesse caso você tem que parar e esperar que os animais saiam e liberem o caminho. Existe, por questão de segurança, um ponto de corte na maratona, isto é, se o atleta não chegar num determinado ponto do percurso em um determinado tempo, ele é obrigado a continuar no dia seguinte e nesse caso recebe uma punição de quatro horas. Em resumo, maratona muito difícil e perigosa e que exige um bom condicionamento físico e muita concentração.
Sabine: A partir de que momento o senhor começou a ser conhecido como Djalma Iceman. Qual a história por trás deste nome?
Djalma: Surgiu de uma matéria de capa de um jornal local, seção de esportes, onde o jornalista João Lucas começou a me chamar de “senhor das neves”, “homem do gelo” e nesse tempo os atletas de minha assessoria e outras pessoas começavam a dizer: lá vem o homem do gelo, chegou o homem do gelo para treinar, e então resolvi assumir como Djalma Iceman, que na realidade indica o meu nome e a atividade esportiva que abracei.
Sabine: Correr na neve tem grandes desafios. Qual foi o lugar mais inusitado que já fez uma corrida?
Djalma: O Polo Norte é algo quase inimaginável. Estou falando em correr uma maratona em um bloco de gelo flutuando no oceano Ártico, no topo do mundo, ao lado do 90° de latitude N – local onde todos os meridianos se encontram. A North Pole Marathon, que eu corri em 2018, está no Guinness como a mais ao norte do planeta. Temperatura com sensação térmica de -50°C, piso extremamente fofo, sendo furado o tempo todo pelo atleta, existindo apenas um ponto para abastecimento e troca de alguma peça do vestuário, se for o caso. Essa área do polo norte é reduto de urso polar, mas durante a maratona, pessoas da organização com armas ficam atentas aos animais, não para matá-los, apenas para causar um susto e afastá-los da área.
Sabine: Explica mais sobre como é possível enfrentar uma prova onde a temperatura é extremamente baixa o tempo todo, como a North Pole Marathon?
Djalma: É preciso estar atento e ser fiel às regras que a natureza impõe, por exemplo, em uma maratona como essa de frio intenso é preciso usar a roupa adequada, isto é, três camadas tanto na parte superior como na parte inferior do corpo, além de calçados com travas, touca, balaclava, óculos de proteção UVA e UVB, polainas e camadas de luvas. Durante toda a prova estar atento aos sinais produzidos pelo corpo e sinais externos do ambiente em questão e em quase todos os casos têm a necessidade de se utilizar um ponto de apoio para verificações do corpo e ter a possibilidade de fazer uso de bebidas e alimentos quentes.
Sabine: Sete maratonas em sete dias em sete continentes. O senhor é o primeiro brasileiro com mais de 60 anos a participar da World Marathon Challenge. Como foi, e qual o maior desafio enfrentado?
Djalma: Esse foi o maior desafio que enfrentei. Foram 7 maratonas consecutivas em ambientes distintos. As maiores dificuldades dentro desse desafio foram: não ter lugar adequado para descansar; Jet Lag; fusos horários diversos, protocolos de burocracia nos aeroportos de 7 continentes; diferença de temperatura de quase 50°C da primeira para a segunda maratona
Sabine: O que essa experiência trouxe de aprendizado ou mudou a sua vida em algum quesito?
Djalma: É preciso acessar a força interna que existe em cada um de nós. Eu não conhecia essa minha força, fui testado e superei minha própria expectativa. Para isso, é preciso acreditar, ser disciplinado e focado em seus objetivos.
Sabine: A sua primeira maratona foi aos 50 anos e em 2017, se tornou o atleta mais rápido do mundo, com mais de 60 anos, na Antarctic Ice Marathon. É mais uma prova de que quando se quer realizar, basta ter vontade e ir atrás, não é mesmo?
Djalma: Em 2006 foi a minha primeira maratona, em Florianópolis/SC, eu estava completando 50 anos de idade. Quando conquistei esse título de mais rápido do mundo (61+) na Antarctic Ice Marathon, em 15 anos de edição nessa prova, este resultado foi fruto do meu treinamento e da minha equipe de profissionais que muito me ajudou. E na verdade não fui lá para isso, fui apenas correr e dar o meu melhor. Eu sempre digo quando vou participar de uma maratona, eu vou para vencer meus medos e ultrapassar meus limites.
Sabine: O que lhe motiva a treinar para provas tão desafiadoras?
Djalma: Correr para mim significa saber que posso encontrar novos caminhos na vida e me tornar uma pessoa melhor e mais rica de conhecimento sobre a minha própria pessoa, sabendo mais das minhas forças e das minhas vulnerabilidades. É a fé, disciplina e foco que me mantém de pé e motivado para continuar, mesmo quando, em alguns dias, eu relute em treinar.
Sabine: Quando corre sempre leva junto a campanha da Doação de Órgãos. Em 2018 o senhor fez a Campanha 1.000km do Bem, em prol do Hospital Infantil, de Florianópolis. Em 2020 correu 1.000km no Movimento Nacional Km pela Doação de Órgãos. Um exemplo de que correr também é fazer bem ao próximo, não é mesmo?
Djalma: O Brasil ainda é um país muito desigual, e muitos não tiveram a oportunidade como eu tive na vida. E como eu fui impactado por pessoas para o esporte, eu procuro dar a minha parcela de contribuição procurando impactar positivamente pessoas para que possam tocar seus projetos no esporte ou em outra área da vida. Procuro sempre ajudar em meu entorno, seja com um incentivo em palestra, seja com campanha beneficente. No Movimento Nacional Km pela Doação fui agraciado com o título de Embaixador da Corrida.
Sabine: Qual o próximo desafio e qual deve marcar 2023?
Djalma: Esse é o spoiler. A minha trajetória nas provas extremas, e em outras, está sendo escrita em livro a ser publicado este ano de 2023.
Sabine: Para finalizar, qual recado o senhor quer deixar ao leitor da Runners Brasil?
Djalma: Tenha certeza de que nada e ninguém detém uma pessoa que acredita na sua força, é disciplinada e focada no seu projeto de vida.

