Como a genética influencia no seu rendimento na corrida
Quando vemos atletas de elite competindo geralmente relacionamos sua performance à esforço e superação. Embora isso seja verdade, questões genéticas, e não apenas trabalho duro, são muito relevantes nesse desempenho. É muito difícil imaginar o Eliud Kipchoge (provavelmente o melhor maratonista de todos os tempos) sendo um jogador de basquete. Tenho certeza que não faltaria esforço para ele chegar lá, o problema é que sua genética não permitiu que tivesse mais do que 1,67cm de altura, o que torna praticamente impossível ter sucesso de alto nível no basquete. Isso não quer dizer que o Kipchoge não possa ser um bom jogador de basquete, apenas que ele dificilmente chegaria ao alto nível.
O exemplo é extremo, eu sei, foi apenas uma forma de comparação. Trazendo a conversa para a nossa realidade, todos temos um amigo(a) que rende mais, mesmo que, às vezes, treine menos. Essa diferença, sem dúvidas, tem relação com a genética. A maioria de nós, corredores amadores, não somos necessariamente favorecidos geneticamente, mas isso não quer dizer que não possamos evoluir, apenas que dificilmente alcançaremos níveis olímpicos de desempenho. Isso, normalmente, não é um grande problema para a maioria, que usa a corrida para manter a saúde e melhorar os RPs, e não necessariamente busca um índice olímpico.
Mesmo que fatores genéticos sejam muito relevantes, fatores externos, como treinamento e estilo de vida, podem interferir (e muito) no nosso resultado. O treinamento consistente, por exemplo, pode mudar completamente uma pessoa, desde a parte psicológica e até questões genéticas. É provável que você não será um(a) atleta de elite, porém seu desempenho pode continuar melhorando por um longo tempo.
Pra que você siga evoluindo como atleta, três conceitos básicos são de extrema importância: consistência, progressão e individualidade:
Consistência, pra mim, é a palavra mais importante para quem quer continuar evoluindo. Infelizmente, o treinamento é ingrato. Você pode treinar por muito tempo, gerar adaptações e melhorar, porém, se parar de treinar, em pouco tempo vai perceber uma reversão de toda evolução que construiu no período de treinamento. Uma boa sugestão é fazer períodos de manutenção, com menor volume e intensidade de treino, mas nunca parar por completo por mais de duas ou três semanas.
Progressão é extremamente importante e garante uma adaptação contínua. Quando falo em progressão, não é somente pensando treino a treino, mas também a longo prazo. Estímulos diferentes, objetivos diferentes, tudo é parte de um grande projeto de continuar progredindo e mantendo o estilo de vida. Se o mesmo estímulo é repetido inúmeras vezes, a resposta adaptativa vai reduzindo até o ponto de não gerar mais ganhos. Treine para uma prova curta, depois uma longa. Varie a estratégia de treino, por vezes priorizando volume, outras intensidades. Inclua treinos de bike, natação, fortalecimento, etc. Nosso corpo sempre vai adaptar e melhorar, desde que receba os estímulos para isso.
Individualidade: Não há como equiparar dois corredores(as), isso é um fato. Além dos fatores biológicos, as atividades do dia a dia influenciam no volume total de treino semanal. Não há como comparar uma mãe que passa o dia em função do filho que acabou de aprender a andar e uma profissional de TI que passa o dia sentada. Isso quer dizer que as pessoas que passam o dia sentadas(os) tem um desgaste menor? Não! São exigências diferentes que precisam ser analisadas individualmente. Enquanto um pode precisar de um volume semanal menor, outro pode precisar um trabalho técnico ou de mobilidade do quadril após uma longa jornada de 8h sentado. Peso, altura, genética e histórico, não há como comparar duas pessoas. Treine e tenha objetivos baseados em você, não em outras pessoas.
Inspirar-se nos atletas de elite é muito legal, mas comparar-se dificilmente trará benefícios e, pior, pode te fazer entrar em uma realidade de volumes e intensidades que não são suas, gerando perda de desempenho e possivelmente lesões. Respeite seu corpo e sua história.
