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Badwater – A Ultramaratona mais difícil do mundo

07/08/2022 | De Raphael Bonatto

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Badwater – A Ultramaratona mais difícil do mundo
A fama desta icônica competição se justifica logo ao chegar na Badwater Basin, ponto mais baixo das Américas (-86m em relação ao nível do mar), localizado no Deserto de Mojave na Califórnia e ponto de partida para a jornada de 217km ou 135 milhas até o Portal do Mount Whitney. Com temperaturas que superam facilmente os 50° C e umidade relativa do ar frequentemente abaixo de 10%, o caldeirão está formado. Outro fator limitante para a participação é o número de vagas disponíveis. São apenas 100 vagas, dentre elas 10 reservadas para convidados do diretor de prova e as outras 90 distribuídas entre os demais atletas, que deverão enviar seus currículos esportivos dentro dos prazos estabelecidos e depois torcerem para serem escolhidos. Existem algumas competições ao redor do mundo que aumentam suas chances, como no meu caso por exemplo, nas minhas duas participações (2009 e 2016), obtive bons resultados na Brazil 135, ultramaratona coirmã da Badwater e com isso, garanti minha vaga. Após receber o convite, temos apenas alguns dias para efetuar o pagamento da inscrição e iniciar a organização para a viagem. Cada atleta, de forma obrigatória deve possuir pelo menos um carro de apoio e duas pessoas em seu suporte. Existe ainda as reservas de passagens aéreas, hotéis e o restante da parte logística. Além disso, não podemos esquecer o principal: treinar firme para concluir o desafio! Montei um ciclo de 5 meses ou 20 semanas para a prova. Dentro do planejamento existiam treinamentos em altas temperaturas, até mesmo dentro de saunas para acostumar o corpo ao calor extremo, correr agasalhado no momento mais quente do dia, rodagens de alto volume, treinamento de força, entre outras estratégias. Em 2009, considero que cheguei muito bem preparado para a competição. Já em 2016, infelizmente sofri uma lesão durante o ciclo e larguei apenas para cumprir tabela, desistindo no Km 70. Por isso vou focar em 2009, ano no qual conquistei o Buckle, fivela de honra para os atletas mais rápidos (sub 48h). Dois grandes amigos brasileiros resolveram que seriam meus apoios e o melhor de tudo, pagariam suas despesas do próprio bolso. A Badwater além de um desafio físico e metal, também é um desafio econômico. Desta forma, já no início fiquei mais tranquilo, seria um grande custo a menos. Realizei o ciclo de treinos com maestria e embarquei para Las Vegas. Foram 4 dias de adaptação por lá e depois rumo ao deserto. Mais 2 dias e estava preparado para a largada, que aconteceria em ondas. Estava posicionado na onda intermediária, que largaria as 8h da manhã, sob um calor já acima dos 50 graus. Tudo pronto, carro equipado, estratégia elaborada, lá fomos nós, rumo ao Mount Whitney. Comecei tranquilo e seguindo a estratégia de correr 2Km moderados intercalando com 1km de caminhada. Fui muito bem até o Km 72, estava entre os primeiros colocados, quando de repente meu corpo literalmente “ferveu”. Numa parada para hidratação, sentia meus batimentos cardíacos muito altos e o corpo quente demais. Ali o deserto começava a cobrar sua fatura. Em resumo, estava entrando em hipertermia, situação extremamente perigosa e que pode levar uma pessoa a morte. Resolvemos que ficaríamos naquele local até o corpo estabilizar, o que demorou mais de 6h. Com isso podia observar os outros atletas passando e não podia fazer nada. Assim que a frequência cardíaca estabilizou voltamos à pista. A temperatura começou a cair e voltei a correr bem. Foi assim por toda a madrugada e ao amanhecer cheguei em Panamint Springs, ponto de controle situado no km 144. O sol começou a esquentar novamente, porém desta vez não dei chance pro azar. Havia comprado uma roupa tecnológica que as pessoas utilizam naquela região para se protegerem do calor. Era uma calça e uma jaqueta branca super leve, que ao serem molhadas refrescavam o corpo e secavam rapidamente. Aquilo era um oásis para o corpo. Feita a troca de roupa, segui meu caminho, já cansado, acabava de passar das 24h correndo. Traçava mini metas e no meio da tarde atingi a marca das 100 milhas ou 160km. Agora faltaria “apenas” 57km para a chegada. Passo a passo íamos vencendo os quilômetros, porém não contava com uma última surpresa. Ao se aproximar da chegada, os últimos 6Km são uma subida insana. Já era noite e nos aproximávamos de Lone Pine, última cidade antes do ataque final. Fomos abordados pela polícia que avisava do perigo de ataque de ursos, pois estava ocorrendo um incêndio florestal justamente em nossa rota. Pediram atenção redobrada e nos avisaram que a chegada seria realizada um pouco antes do Portal do Mount Whitney. Seguimos calmamente, subindo e avaliando os riscos, porém uma velocidade um pouco menor. Comecei a ficar nervoso, pois sabia que para conquistar o Buckle precisava finalizar a prova abaixo das 48 horas. Olhava o relógio e fazia as contas, estava no limite do tempo, não poderiam haver mais nenhum tipo de imprevistos. Contava com minha equipe de apoio para ir mapeando e iluminando meu caminho, além de manter o carro com som mais alto, visando espantar os animais que porventura chegassem mais perto. Esta foi uma dica da polícia e achei super válida. Foi então que observei a linha de chegada, montada de forma provisória e segurada por dois membros da organização, de maneira muito simplória, mas que significava muito pra mim, afinal de contas eu acabara de me tornar um dos poucos brasileiros que possuem a fivela de honra de uma das competições mais importantes do mundo das ultramaratonas! Treinador Go On Outdoor Assessoria Esportiva
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Fontes das imagens

Crédito: Divulgação

Sobre o autor

Raphael Bonatto

Imagine dois atletas com níveis semelhantes de VO2max, volume de treino e experiências na corrida muito próximas. Porém, um deles consegue se destacar e o outro sempre está sofrendo para atingir bons resultados.

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