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As mulheres não querem uma cantada dos homens. As mulheres só querem correr em paz

21/05/2023 | De Sara Veloso

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As mulheres não querem uma cantada dos homens. As mulheres só querem correr em paz

O assédio sexual no desporto sempre existiu, continua a existir, e existe em ambos os sexos. Com a evolução dos valores sociais e culturais, o assédio sexual começou a ser cada vez mais questionado e debatido. Haverá seguramente quem goste de ser abordado na rua por desconhecidos, sentindo isso como uma massagem no ego. Mas quer parecer-me que a maioria das pessoas (falo sobretudo de mulheres, uma realidade que conheço melhor) sente um piropo (cantada/xavexo) como uma invasão da sua individualidade, uma humilhação, e um desrespeito que nos dias de hoje não faz grande sentido. Se não sabem como é que um piropo vai ser recebido por outra pessoa, então não o façam, não invadam o espaço do outro. Na dúvida, o mais sensato e correto é não o fazerem.

Repito: assédio sexual no desporto acontece tanto com homens como com mulheres, mas é mais sério, ameaçador e grave quando é feito de um homem para uma mulher, devido à normal desproporção da força física entre os dois sexos e do quão intimidante um piropo se pode tornar para alguém mais frágil.

Considero-me uma mulher mentalmente forte e que não se deixa intimidar facilmente. Sempre fui muito independente, destemida, com o mindset programado para “se eu não o fizer, ninguém o fará por mim”. Viajei muitas vezes sozinha, viajei várias vezes com desconhecidos, vivi sozinha na Lituânia, vivo sozinha em Lisboa. E foi esta solidão — aliada à vontade de não deixar de fazer as coisas de que gosto por estar sozinha — que impulsionou a minha forma de ser e de estar. Não deixo de treinar na rua seja a que horas for, seja onde for. Mas há mulheres que não são assim. Que não treinam na rua se estiver escuro. Que não correm na rua nos meses de inverno porque há menos luz natural. Que não correm em determinados locais porque têm medo. Que só correm acompanhadas. E este medo é empolado pela possibilidade de serem abordadas por homens, leia-se por “pessoas com mais força física”. E isto é triste. É injusto. É ridículo.

As mulheres, quando abordadas na rua, automaticamente sentem-se ameaçadas porque sabem que se aquele homem quiser, no limite, pode fazer o que quiser, porque será uma luta física desigual. E acho que é muito isto que nós, mulheres, sentimos quando ouvimos um piropo, sobretudo se for daqueles mais agressivos: medo. Nós não conseguimos racionalizar, nós não conseguimos avaliar se a abordagem foi positiva ou negativa, nós só nos sentimos ameaçadas. O nosso batimento cardíaco acelera, sentimos impotência, sentimo-nos desprotegidas e frágeis.

Sabendo os homens disto, e acreditando que 90% das vezes não têm a pretensão de assustar a mulher, penso que vai sendo tempo de repensar o piropo à mulher que passa na rua a fazer exercício.

Há cerca de um mês tive uma experiência de assédio que me motivou a falar sobre este tema nas minhas redes sociais, e agora aqui. Estava de férias em Nápoles, Itália, e estava a preparar a Maratona de Madrid. Tinha o meu treino longo para fazer, acordei cedo e fui. Perto de um parque, fui abordada por um grupo composto por homens, jovens, que estavam sentados num muro, a fumar. Dois deles saltaram do muro e começaram a correr ao meu lado por uns segundos. Foi muito desestabilizador para mim porque fiquei com receio que me bloqueassem a passagem ou me tocassem. Fiquei nervosa, inquieta, com medo.

Estamos em 2023 e isto ainda acontece. Olhares inconvenientes, piadas desagradáveis, piropos sexistas, atitudes invasivas. Fomos educados para “ignorar”, para “não dar relevância”. Mas ignorar só vai fazer com que estas atitudes se perpetuem no tempo. Por isso, temos de falar! Temos de ensinar às gerações futuras que o assédio é errado.

Memorizem: As mulheres não querem o piropo dos homens. As mulheres só querem correr em paz e segurança. Sem abordagens e sem interações.

Título original: As mulheres não querem um piropo dos homens. As mulheres só querem correr em paz.

Sobre o autor

Sara Veloso

Especialista Exercício Físico

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