Minha história com a corrida – Márcia Muzzi

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A corrida tem um significado emocional para mim muito grande. Desde adolescente eu gostava de correr, na época que nem se falava em gps, eu contava os kms em voltas na pista de cooper perto da minha casa! Como também sou bailarina, tive que abrir mão da corrida por um tempo e depois vieram os filhos.
A corrida voltou trazendo para mim a possibilidade de ser livre! Eu dependia somente da minha vontade para correr, não dependia de nada nem ninguém. Isso significa muito quando você precisa de uma série de coisas e pessoas para ser bailarina e conseguir fazer os espetáculos.
Aquele tinha se tornado meu momento. Consegui recuperar meu peso de antes da gravidez e estava notando como ficava mais feliz, disposta e resistente. O foco na época era a Volta da Pampulha (18km)  e fomos eu e meu irmão treinar para ela. Essa foi minha primeira prova oficial.
Quando percebi já estava totalmente inserida nesse mundo: longo, tiro, pace, intervalado, garmin, tênis eram as palavras mais faladas no grupo dos novos amigos e era e é ótimo estar no meio disso.
Comecei a fazer provas de 5k, 10k, 15k e resolvi ir para a meia maratona. E era sempre assim: treinava para a prova alvo e na linha de chegada as lágrimas chegavam também. Nesses treinos longos minha companhia era a música e a mim mesma e quantas vezes provei para minha cabeça que conseguia ir além… O aspecto emocional que a corrida desperta é enorme. Eu sempre conseguia ver uma série de mudanças psicológicas e comportamentais como resultado desses momentos meus comigo mesma. Como sou psicóloga isso sempre me chamou muita atenção e me encantou.
Uma palavra sempre vinha à cabeça: maratona. E um dia do nada resolvi que era a hora. Escolhi a prova e comecei o treinamento. Esses meses foram os que ultrapassei o que eu entendia como meu limite. A disciplina foi fundamental e eu ficava imensamente aliviada por depender somente de mim a assiduidade nos treinos. Foram todos feitos: fosse de madrugada, de noite ou na hora do almoço, com vontade, sem vontade, com dor, preguiça, cansaço eu sempre dava um jeito em questão de tempo e criava alguns gatilhos emocionais para resolver os nós mentais. E houveram treinos que a luta era emocional. Cada nova distância alcançada era uma vitória, uma barreira que ficava para trás.
Em um dos últimos treinos longos ( o de 32k) me recordei de um livro que li na infância sobre um burrinho que queria ser alpinista e sua luta para chegar até o topo da montanha e ver o que tinha do outro lado. Todos os bichinhos duvidavam dele e não viam sentido mas ele foi viver seu sonho. Eu me sentia exatamente assim: era o dia de ver o que vinha depois do km30 e lá estava eu, sem dor, treinando em morro e muito mais forte do que imaginei que poderia estar. Esse dia entrei no carro depois do treino e chorei copiosamente. Não era somente o treino vencido, era uma nova realidade, uma reinvenção da forma de estar  no mundo diante da capacidade de se adaptar e lidar com o inesperado. Isso foi fascinante.
Às vésperas da maratona eu fui criando algumas frases que chamei de “pensamentos fortes” para que eu usasse mentalmente nas horas mais difíceis. Os treinos finais foram movidos por esses pensamentos. Algumas dores surgiram, a ansiedade da prova chegando, o medo de machucar, o sentimento de exaustão física, tudo isso passava pela cabeça e eu ia desfazendo esses nós com argumentos que vinham desses “mantras” que criei.
Foram 1909,7kms de treino. E chegou o grande dia. “ A dor é inevitável, o sofrimento é opcional” e com uma calma enorme estava eu na largada.
Defini a maratona como um misto de emoções. Uma montanha russa onde passam flashes da vida. Coisas inusitadas, sem muita coerência mas que fazem parte da vivência de alguma forma. Pensava na minha família, nos meus filhos e surgia uma força visceral de correr! Foi tudo dentro do planejado e com muita prudência por causa das dores que tive na reta final.
Os últimos 12kms eram o inesperado. Tinha treinado até o km32 e não sabia como seria dali em diante. Lembrei da capacidade de adaptar, de reinventar, de suportar e ir além, coisas que desenvolvi durante os treinos. Fui lembrando de cada um deles e de todo caminho que já tinha sido feito. O inesperado virou só 12kms.
Veio um forte enjoo no km38 e novamente lembrei dos treinos e agi da mesma forma. O enjoo passou. Passei por um senhor que assistia a prova e ele disse: faltam dois quilômetros para você se tornar maratonista e bateu sua mão na minha. Dois quilômetros! Eu estava passando bem. Cansada, mas bem e sem dor. Sem perceber fui acelerando e a emoção tomava conta de mim. As lágrimas começavam a aparecer. Um pouco antes da placa de 42k meu marido me esperava e foi correndo ao meu lado até a linha de chegada. Um filme passava na minha cabeça dos treinos, das pessoas queridas que tanto apoiaram e o choro vinha forte, aquele era o momento que tanto esperei! Na linha de chegada: maratonista!
Foi ali que entendi que ser maratonista foi um processo construído ao longo dos treinos e que para ser maratonista é preciso desbravar internamente os limites físicos e emocionais. Se enxergar além de somente ver. Ser maratonista é além do físico: é um processo de auto conhecimento e reinvenção psicológica.

Márcia Muzzi

Instagram: @corre_marcia

Minha história com a corrida

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